O SERVENTUÁRIO Independente
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1. A GRANDE ILUSÃO

De um cineasta universal, JEAN RENOIR, ocorre-me a lembrança de um dos seus mais expressivos filmes para título da presente crônica.

Retroagindo mais no tempo e no espaço, um personagem do ETERNO MARIDO, de DOSTOIEVSKI, assim exprime o seu horror aos homens e à sociedade da sua época: o mais terrível, na Rússia de hoje, é que já não sabemos a quem devemos prezar

. E não será que esta frase, num diálogo de ficção, vai adquirindo agora a sua perfeita sensação de realidade dentro do próprio JUDICIÁRIO?

Esta é a sensação que decorre do recente desfecho (?) do movimento empreendido pelos serventuários da Justiça Estadual do Rio de Janeiro, com vistas ao ressarcimento de sua exclusão do reajuste concedido em 1987 aos servidores públicos.

Conquanto não tenha sido de todo improdutivo, dito movimento não alcançou - nem de longe - seu verdadeiro objetivo: o ressarcimento daquela exclusão, em termos imediatos, futuros e retroativos. Para os donos do Poder (nas esferas do Executivo e do Judiciário) prevalece a espúria interpretação (?) de que "nada mais temos a reclamar" neste campo.

Estamos diante de um esbulho inequívoco, mormente quando sabemos - de acordo com o presidente do Sind-Justiça - que, desde o Governo Marcello Alencar, a verba daquele ressarcimento havia sido incluída na Lei Orçamentária Estadual.

Objetivamente, ante a pressão da Categoria, comprometeu-se a Administração do Judiciário a pagar-nos uma "reposição" de 16% parceladamente, com 10% a partir de janeiro e o restante não sabemos quando...

Frise-se, contudo, que tal "reposição" corresponde simplesmente à mera atualização dos nossos vencimentos de acordo com os reajustes do salário mínimo ocorridos em 1999 e 2000; e que, proximamente, vai haver novo reajuste de salário mínimo...

Cabe lembrar que a citada atualização em face do salário mínimo nos fora escamoteada em 1998, quando a Categoria passou a reivindicar mais incisivamente o ressarcimento da discriminação sofrida em 1987.

Na verdade, aquilo que constituía um ato soberano de justiça (a atualização de vencimentos em função do salário mínimo) transformou-se, por um matreiro artifício da Chefia do Poder, num humilhante "cala-boca" para driblar uma legítima reivindicação da Categoria: o ressarcimento de uma discriminação, cuja inconstitucionalidade foi judicialmente reconhecida e transitada em julgado.

Diante deste quadro, é fundamental que a Categoria dê continuidade à sua luta, sem deixar-se iludir por uma "conquista" que - longe de representar um fruto da treponêmica parceria da Diretoria do Sind-Justiça com a Cúpula do Poder - será uma reposição tardia e incompleta de um legítimo benefício que nos fora usurpado desde 1998...

Somente à Categoria cabe decidir o destino de suas lutas, exigindo uma definição condigna e coerente dos donos do Poder sobre o ressarcimento a que faz jus de longa data, através do seu Sindicato ou apesar dele e das parcerias vermais de seus dirigentes. Com efeito, é bem subalterna a trajetória de todos os que vão andando ao léu ou como bola de jogo nas mãos alheias...

 

2. A DUPLA-FACE DOS PARCEIROS DO PODER

É preciso pensar nos mortos, não para mergulhar a alma no desânimo, mas para robustecê-la nos bons anseios - ROQUETTE PINTO.

Só mais recentemente - após uma série de versões contraditórias - tive conhecimento definitivo da causa mortis do bravo companheiro EDSON DE FREITAS. A exemplo de notáveis personalidades que dignificaram a espécie humana (como HEMINGWAY, TCHAIKOWSKI, SANTOS DUMONT, ANTERO DE QUENTAL, RAUL POMPÉIA e PEDRO NAVA), nosso irmão EDSON DE FREITAS suicidou-se. A tragédia registrou-se no hospital onde fora internado, após sofrer um acidente de trânsito, ao projetar-se de uma janela do 3º andar.

Tendo sido o mais combativo militante da história de nossas lutas, EDSON foi um soldado permanente da liberdade em sentido lato e da liberdade sindical em especial. Até ao pôr termo à vida, EDSON demonstrou sua liberdade completa em termos de autodestruição, num gesto de comovente dramaticidade.

Sua vida foi um apostolado em favor dos trabalhadores e jamais circunscreveu-se aos interesses de sua Categoria. Dominava-o um sentimento íntimo, uma espécie de inclinação natural, que sempre o colocou ao lado dos mais desfavorecidos contra os mais poderosos.

Sem dúvida nenhuma, a covarde postura de agachamento da Diretoria do Sind-Justiça ante a Cúpula do Poder após a fracassada greve de 1998 despertou em EDSON DE FREITAS uma revolta pessoal no seu extremo limite, agravada pela decepção que nos causou a divisão da Oposição na última eleição sindical.

É de lamentar-se, ainda, a ambivalência dos arautos da tão decantada parceria com os donos do Poder ao sonegar a causa mortis do companheiro EDSON, após veicularem confidencialmente, nos primeiros instantes, a versão real do suicídio. Esta dupla-face - de cunho eminentemente psicológico e ditada pela consciência pesada de uma súcia de poltrões - gerou suspeições comprometedoras contra os seus protagonistas.

Diante do seu suicídio, podemos dizer do grande EDSON DE FREITAS o que OLIVEIRA MARTINS escreveu numa carta a EÇA DE QUEIROZ sobre a morte, nas mesmas condições, de ANTERO DE QUENTAL: o nosso pobre ANTERO não tinha filosofia bastante para perceber que da vida nem vale a pena nos desfazermos dela.

E - tendo em vista o impressionante paralelismo entre as condições psicossociais de ambos os desenlaces (o de EDSON e o de ANTERO), com a única diferença na forma de praticar o gesto extremo - transcrevo o relato magistral do saudoso ÁLVARO LINS (maior crítico literário da História Brasileira) sobre o destino fatal do genial ANTERO DE QUENTAL:

Fugindo da realidade, Antero criou, subjetivamente, uma humanidade ideal, aquela que fosse capaz de contê-lo e realizá-lo. Isolado, podia manter a sua fé em face dessa humanidade. Cada contato com o mundo dava-lhe, porém, uma nova impressão de que o seu pensamento estava construído sobre o abstrato e que era de impossível objetivação. Quando esta impressão se tornou uma certeza inapelável, Antero sentiu-se inteiramente só em meio das suas ruínas. Poderia recomeçar? Ele não acreditava em mais nada. Acreditava, apenas, na morte como uma solução total, e matou-se, com um tiro de revólver, aos pés de uma inscrição onde se lia - que disposição do destino! - a palavra "esperança".

Para concluir, confesso que sinto-me como um admirador extático diante de companheiros do naipe de EDSON DE FREITAS e ELISABETH GATTO, cujos exemplos de atitudes pessoais e virtudes humanas jamais serão esquecidos pela esmagadora maioria de seus contemporâneos. E por falar em "esperança", o nome de nossa histórica BETH impõe-se como solução ideal para a unificação geral da Oposição e, conseqüentemente, para uma luta efetiva, lúcida e destemida em busca de novos horizontes para os legítimos anseios da Categoria.

À semelhança de EDSON, também a notável BETH GATTO foi vítima da má-fé e falta de escrúpulos de uma súcia de energúmenos e fariseus (dentre os quais um "conspícuo" biônico) que - por trás e sub-repticiamente - a inquinavam de "pelega". Com ironia, quando diretor do Sind-Justiça, limitava-me a dizer-lhes: Posso concordar com vocês, no dia em que as palavras mudarem de sentido...

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