Entrevista exclusiva :
Gilberto Stoliar, primeiro presidente do Sind-Justiça
A categoria precisa ser conscientizada de que hoje, mais do que nunca, é preciso haver mobilização política permanente .
Esta é uma das preocupações de Gilberto Stoliar, último presidente da USERJ e um dos fundadores e primeiro presidente do Sind-Justiça.
A seguir, a íntegra da entrevista, realizada no último dia 13, no Fórum de Nilópolis, onde trabalha .
O SERVENTUÁRIO Independente (SI ) : Quais foram as principais conquistas de sua gestão como último presidente da USERJ e primeiro do Sind-Justiça ?
Gilberto Stoliar ( GS) : Basicamente duas coisas : a primeira delas foi realmente a consolidação do sindicato, isto é, a legalização do sindicato - a legalização formal , com o registro e o reconhecimento - e a legitimação dele como ponto de referência da categoria em relação às suas lutas. Mesmo porque a USERJ, naquele momento, tinha passado por uma crise de credibilidade. Não só a USERJ, mas o próprio movimento dos serventuários estava em crise por conta de uma derrota imposta pelo Moreira Franco, uma derrota fragorosa que nós tivemos, em uma luta que na época teve falhas de condução, etc., o que levou a uma derrota fragorosa. Então, o resgate da credibilidade das pessoas na luta por conquistas foi realmente uma coisa importante.
E a outra foi a quebra de um mito da época, porque naquela ocasião os companheiros que trabalhavam no interior ganhavam bem menos que os da capital. Aquilo era um absurdo, mas estava consolidado como uma verdade absoluta.Todo mundo achava que não seria possível mudar - porque os juízes também tinham isso, etc. etc. . E a gente conseguiu primeiro convencer os velhinhos de que Juiz é Juiz e serventuário é serventuário. E segundo e principalmente, conseguimos fazer com que - a partir daquele momento - as comarcas do interior começassem a participar ativamente da vida sindical e da própria construção do sindicato. Isto aí eu considero muito importante na nossa gestão. Foi naquele momento - porque até ali todo movimento se resumia à capital e só excepcionalmente vinha um ou outro colega do interior, mas vinha não organicamente, vinha por ele, como curioso, etc. . Mas a partir dali, não...a gente começou a organizar as comarcas, começou a perceber que o pessoal do interior, inclusive, tem uma tendência de participação muito mais efetiva do que o da capital. E a partir daí surgiu a organização do sindicato como ele está até hoje, dando-se a mesma importância às comarcas do interior que à da capital.
SI - Após o término de sua gestão no Sind-Justiça houve um decréscimo vertical de sua participação nas atividades políticas da categoria, tendo chegado quase a zero. O que aconteceu ?
GS - Quase a zero não é verdade...porque eu tenho participado sempre que possível. Mas a questão é a seguinte : neste movimento existem vários aspectos que você precisa abordar. O primeiro deles é o seguinte : esse cargo de presidente do sindicato, de liderança sindical, implica numa série de circunstâncias que açulam a sua vaidade. Eu me lembro que, quando era presidente da USERJ e do Sind-Justiça, todo mundo me parava no corredor, me dava tapinha nas costas, meu líder, meu presidente, todo mundo fica não é bem bajulando, mas criam uma relação de admiração com você. Por outro lado, os gabinetes se abrem , não só dentro do judiciário - porque os desembargadores tendem a te dar mais espaço pela representatividade que você tem - como também fora, e naquelas nossas lutas de assembléias sindicais, a gente entrava no gabinete dos deputados e quando se identificava como presidente da entidade de classe dos servidores da justiça era uma coisa... manda entrar, estende o tapete vermelho, etc... Então isso leva a duas conseqüências : primeiro estimula a sua vaidade pessoal e ao mesmo tempo cria para a categoria a sensação de que ela não precisa ir à luta porque tem alguém que já está fazendo isso por ela. E isso eu considero extremamente ruim.
Há um outro aspecto ligado ainda ao primeiro, o da vaidade, que é o seguinte : você pensa : ah, isto aqui está muito bom, eu quero continuar, vou continuar a vida inteira...Como eu, na época, já tinha muito claro que não deveria ser um sindicalista profissional, assim como não era um político profissional, eu tinha bem claro que a minha militância de cidadão não poderia se converter em um negócio profissional, sob pena de você ficar viciado, com essas conseqüências que eu já falei. Então, assim que nós percebemos a perspectiva de construir o sindicato, e assim que nós fizemos o estatuto, minha primeira preocupação foi exatamente essa : um mandato inicial de apenas seis meses, exatamente o tempo necessário para você organizar minimamente o sindicato e, em seguida, fazer a renovação da liderança. Até porque eu não era - e ninguém nunca vai ser - o único capaz de liderar o movimento. Na época havia excelentes companheiros, como há hoje, ainda. Naquela ocasião avaliamos que a pessoa mais indicada para continuar com aquele movimento era a companheira Elizabeth Gatto. E foi assim que nós fizemos.