<< continuação da entrevista com Gilberto Stoliar >>
E agora,ainda com relação ao declínio da participação, vou à segunda parte, que é o fato concreto. Quando assumiu a Beth Gatto, eu tinha o cargo de vice-presidente - um dos vice-presidentes, segundo ou terceiro, não lembro bem - porque estava realmente disposto a não ter uma participação ativa por estas razões que eu acabei de citar, acrescendo-se o fato de que naquela época estava nascendo o meu filho, e eu estava começando uma nova etapa da minha vida pessoal, etc.
Então, quando a Beth assumiu, o que aconteceu ? Criaram-se , sem querer , dois grupos de influência que polarizavam as discussões na administração do sindicato. O grupo da Beth e o meu grupo, pois nós tínhamos divergências, tínhamos visões diferentes sobre determinados pontos, o que é natural. E eu comecei a ver aquilo como uma coisa que estava paralisando, de certa forma , a luta sindical. Perdia-se muito tempo em discussões. Então, para evitar que se cristalizasse a questão do grupo do Gilberto ou do grupo da Beth, eu fui a alguns companheiros e disse a eles que estava me afastando da militância, que o sindicato estava bem entregue e que as divergências não eram profundas, que justificassem se estabelecer ali uma disputa pelo poder dentro da instituição. E, como disse, que o sindicato estava bem entregue nas mãos da Beth Gatto, uma companheira que eu admiro até hoje, e lamento que ela não possa, inclusive, concorrer agora, nas próximas eleições, pois em toda eleição eu chego perto da Beth e digo : como é , Beth, vamos tomar este sindicato de novo ? Vamos retomar o caminho ? E foi isso que aconteceu, foi essa a razão pela qual eu , de certa forma, me afastei do sindicato .
Um dos nossos companheiros da época, o falecido Zenildo, depois, ao se passar para o outro lado, por razões que até pelo fato de ele já ter morrido não é necessário aprofundar , espalhou lá a versão que eles utilizam até hoje, de que eu renunciei, que abandonei a luta, etc., o que não é verdade, pois, mesmo depois destes acontecimentos, eu continuei participando de todos os movimentos que houve no sindicato. Enfim, em todas as atividades sindicais eu estava presente como serventuário da justiça, não necessariamente como estrela, como líder, que eu não tenho vocação pra isso. Embora eu reconheça que tenho alguma competência para exercer papel de liderança em alguns aspectos, eu não tenho vocação para estrela. E, por isso, eu saí dali...Foi praticamente isso !
SI - Como você vê a permissão estatutária atualmente existente, pela qual uma administração do sindicato pode ser reeleita inúmeras vezes ?
GS - Em tese eu sou a favor disso. É um princípio democrático. De que, em última instância, cabe ao conjunto dos serventuários decidir se quer ou não a continuação daquela gestão. Agora, na prática isso, no nosso caso específico, acaba sendo uma coisa nociva. Mas eu acho que a grande questão da permanência do atual grupo na direção do sindicato não é estatutária. Porque se a categoria realmente tivesse vontade de tira-los de lá , tiraria. O que acontece é que essa vontade ainda não aflorou de uma forma tal que permita isso. Porque até a própria divisão que houve na última eleição a base da categoria se encarregaria de impedir, se houvesse uma vontade efetiva, uma participação maior e um interesse maior no destino do sindicato. Porque o que se vê hoje, que é causa e conseqüência desse grupo que está aí, é um desinteresse total da categoria. Ah, sindicato ? Não quero nem saber...estou de saco cheio disso... Aí generaliza, não separa joio do trigo, enfim, é isso ...
SI - como você vê a pequena participação dos serventuários, especialmente os da capital, nos atos coletivos, como assembléias, manifestações, etc . ?
GS - Falta de credibilidade na instituição sindicato. Este é o primeiro fator. O que é muito mais grave do que falta de credibilidade na diretoria do sindicato. Porque falta de credibilidade na diretoria se resolve com eleição, mas falta de credibilidade na instituição , que foi o que aconteceu por volta de 1987,1988, é um negócio muito mais grave. E isto precisa ser revertido. Mas só vai ser revertido a partir do momento em que as pessoas se derem conta disso. Eu pergunto : a grande maioria dos serventuários da justiça está interessada em lutar pelos seus interesses de forma organizada , de forma consciente ? Não sei, não sei... hoje eu tenho dúvidas sobre isso.
