O SERVENTUÁRIO Independente
Página 8

1. SR. FONSECA

UMA DEMISSÃO, UM ENIGMA

Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique MACHADO DE ASSIS, in DOM CASMURRO

Com inusitada surpresa, tive ciência da dispensa, pelo Sind-Justiça, dos serviços do Sr. ENNES FONSECA, experiente contador, um dedicado e competente profissional que, durante longos anos, prestou assistência contábil e foi o responsável-técnico pela contabilidade do Sindicato e, anteriormente, da USERJ, associação que deu origem ao Sind-Justiça.

Reconheço que demissão de funcionários é assunto precipuamente administrativo, de alçada exclusiva da Diretoria do Sindicato. Todavia, foi estranhamente contraditória, nesse episódio, a atitude do Sind-Justiça que, no ato da dispensa, recusou-se a pagar ao Sr. FONSECA uma indenização por ele reclamada, obrigando-o a pleiteá-la judicialmente.

Com efeito, na data marcada para a audiência do feito na Justiça do Trabalho, lá compareceu - como testemunha do Autor - o ex-diretor jurídico do Sind-Justiça, Dr. JORGE SOARES CHAIM, um companheiro de notório saber e probidade inatacável. Nesse passo, a questão tomou outro rumo...

Informado, via celular, da presença de CHAIM para depor, o presidente (eleito por franca minoria) do Sind-Justiça determinou ao advogado da entidade que fechasse acordo com o seu ex-contador, atendendo as pretensões deste...

Como se vê, estamos diante de mais um enigma...Um enigma que soma-se ao do empréstimo (?) de R$ 241.000,00 concedido, em março de 1998, pela COOP-JUSTIÇA ao Sind-Justiça e ao de uma viatura BLAZER do Sindicato, furtada à porta de uma boate, em pleno embalo de um sábado à noite...

2. UM PARADIGMA

Para nós, o ideal é que o Cinema e o Rádio fossem, no Brasil, escolas dos que não têm escola - ROQUETTE-PINTO

Por horror ao sujo, creio que seria coerente não mais falar do Sind-Justiça e sua treponêmica influência sobre a COOP-JUSTIÇA, cuja Diretoria possui três cargos executivos, sendo dois deles exercidos por diretores do Sind-Justiça...Por horror ao sujo - repito - no exterior e no interior da cúpula dirigente de nossa entidade sindical...

Creio, pois, que é chegado o momento de evocar como um paradigma - dentre tantas figuras notáveis de nossa História - o nome de um eminente nacionalista, hoje relegado ao esquecimento: EDGAR ROQUETTE-PINTO, professor de alta ciência e educador popular, fundador do Rádio no Brasil e pioneiro, entre nós, do Cinema Educativo. Aos seus múltiplos discípulos (dentre eles, meu saudoso pai), sempre ensinou que "o pensamento deve ser livre como a respiração".

Em seu ENSAIO SOBRE ROQUETTE- PINTO E A CIÊNCIA COMO LITERATURA, conta-nos o insuperável MESTRE ÁLVARO LINS (sucessor de ROQUETTE-PINTO na Academia Brasileira de Letras) dois episódios da passagem de ROQUETTE como diretor do Museu Nacional, que retratam a sensibilidade da sua natureza humana (o primeiro episódio) e o seu caráter (o segundo episódio).

Reproduzo, nesse passo, as palavras do EMBAIXADOR ÁLVARO LINS (que, nessa condição, defendeu corajosamente a soberania e a dignidade do Brasil contra a ditadura salazarista, ao conceder e assegurar o direito de asilo ao General português Humberto Delgado):

Quanto ao primeiro, sabe-se que não se trata de anedotário, porém de um episódio real, a que Roquette, por sinal, não emprestou maior significação. Certo dia, diretor do Museu, deparou-se com a desolação de um rapazinho, a quem o porteiro, na fiel execução do regulamento, impedira de penetrar nas salas sem gravata. Parecia o rapazinho interessadíssimo na visita às coleções. Humanamente, e com certo senso de humor, não querendo decepcionar aquela curiosidade de jovem, mas também não sendo lícito desrespeitar o regulamento, o diretor encontrou a solução pronta, prática, excelente para todos: retirou a sua própria gravata, entregou-a ao visitante pobre, retirando-se a seguir do edifício com a gola do paletó levantada sobre o pescoço.

O segundo episódio apresenta um outro lado de sua figura humana. Vitoriosa a revolução de 1930, quanto mais arrogantes ou impertinentes se mostravam os novos dominadores, mais timoratos ou degradados se revelavam muitos diretores ou ocupantes de cargos de confiança da situação decaída. Fez Roquette-Pinto o que não se faz hoje: compareceu perante o Ministro da Educação para declarar-se amigo do Presidente há pouco deposto. E mais: embora fosse de natureza técnica o cargo de diretor do Museu Nacional, dado que também de confiança, apresentava ali o seu pedido de exoneração. Não lhe concederam a demissão, fizeram-lhe apelo para que permanecesse à frente do Museu; e o seu gesto - é o que se depreende no noticiário de jornais da época - provocou espanto e admiração.