
O projeto se consolida com as declarações de todos os expoentes em torno da ministra Dilma Rousseff, uma espécie de cristão novo na agremiação, que mais tarde terá de pagar os apoios das lideranças regionais. A declaração da ex-prefeita Marta Suplicy, na sexta-feira (19), é pragmática. Disse que pode não ser candidata a nada, porque a prioridade é eleger Dilma. A fatura vai ser cobrada.
A ideia de ressuscitar antigas imagens que animaram a militância, como a velha estrela vermelha, não confirma o interesse em outros temas que embalaram o partido até as eleições presidenciais de 1998. Nas eleições de 2002, o programa do PT começou a ser alterado com o propósito de vencer a qualquer preço.
O PT continua um “coletivo de facções partidárias”, como definiu o cientista político Wladimir Gramacho. No entanto, as divisões nascidas nos movimentos sindicais e de divergências ideológicas acabaram vencidas por um projeto de poder ambicioso.
A saída da “clandestinidade”, como disse o próprio Zé Dirceu, mostra como o PT está focado na manutenção do neo-liberalismo que tanto condena. Zé Dirceu transformou-se num eficiente lobista de grandes grupos transnacionais. Sua influência permite a participação do “capitalismo selvagem” em governos chamados de socialistas ou de esquerda, como o do coronel-presidente Hugo Chávez (Venezuela), do índio-cocalero Evo Morales (Bolívia), do bispo Fernando Lugo e do guerrilheiro-ditador Fidel Castro (Cuba), por exemplo.
O pragmatismo levado a cabo e consolidado no Congresso Nacional do PT, entretanto, vai ser maior que o “coletivo de facções partidárias” a que se referiu Wladimir. Na concepção do “Construindo um Novo Brasil” , as diferenças regionais são meros detalhes que precisam ser superados. É por isso que o partido entrega os anéis ou até mesmo alguns dedos em favor de um projeto nacional.
Abre mão de candidaturas majoritárias de curto sucesso para um programa mais ambicioso. Os tempos de marcar espaço com candidaturas próprias são coisas do passado. A ordem é aliar-se a partidos que possam servir de degrau. Nem a ideia de “preferencialmente” fazer alianças nas eleições gerais de outubro com partidos de centro-esquerda vingou no evento do PT.
Enfim, o partido ajudou, mais uma vez, a criar uma salada geral, a embaralhar a cabeça do eleitor. Num estado o PT pode ser aliado ao PP. Noutro, o petismo é inimigo do PMDB. Em outro, a estrela é capaz de abraçar os tucanos. Cobrar coerência terá sido um mero exercício de retórica.

O Congresso Nacional do PT tem usado o apelo do desenvolvimento econômico e social para dar uma nova pintura a um programa que não é mais do PT velho de luta, dos barbudinhos vestidos de camisetas e sandália surradas. Wladimir Gramacho tem razão ao afirmar que ainda que para muitos a organização interna do PT possa parecer estranha, até mesmo incompatível com a ideia de um partido político unido na luta pelo poder, deve-se dizer que partidos de facções não são um exotismo tupiniquim.