O SERVENTUÁRIO Independente
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1. MINHAS HOMENAGENS

 

Meu filho sofreu um atentado

- palavras da mãe de EDSON ao companheiro JESUS, ao receber deste os pertences de seu amado filho, recolhidos em sua mesa de trabalho na 2ª Vara de Infância e Juventude.

 

CARLOS FRADIQUE MENDES, um dos mais célebres personagens de EÇA DE QUEIROZ, dizia: adoro a Vida, de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e, com horror o confesso, o CONSELHEIRO ACÁCIO...

Numa paráfrase, diria eu analogamente: amo a Justiça, de que são igualmente expressões as grandes figuras de sua história e as suas mazelas de sempre, e - no plano geral de nossa Categoria - o memorável EDSON DE FREITAS e, com horror o confesso, os "parceiros" do Poder...

Ao completar-se, no próximo dia 2 de maio, um ano de seu trágico desenlace, rendo minhas homenagens àquele que foi o mais combativo militante da história de nossas lutas, cujo nome há de permanecer vivo - para sempre - na lembrança e no afeto de seus eternos e numerosos admiradores.

Por outra banda, os carneiros e "parceiros" do Poder - ainda que fisicamente vivos - não passam de mortos de licença... Em relação aos quais - como legítimos antípodas do bravo EDSON - esta expressão do escritor albanês ISMAIL KADARÉ, em seu livro ABRIL DESPEDAÇADO, adquire um sentido bem literal: mortos de licença...

 

2. UMA FESTA E UM ROMANCE

Cumpre-me saudar em ÁLVARO LINS o melhor e o maior crítico literário já nascido em terra brasileira - CARLOS HEITOR CONY.

 

Em seu precioso livro LITERATURA E VIDA LITERÁRIA, obra que reúne em dois volumes 350 Notas de um Diário de Crítica, o saudoso escritor, professor e embaixador ÁLVARO LINS - intelectual de vanguarda e membro da Academia Brasileira de Letras - descreve-nos magistralmente as condições que nos permitem aquilatar e sentir o valor literário ou a inexpressividade de um romance. Razão pela qual transcrevo suas palavras:

Suponhamos alguém, um homem, com a sua vida própria, os seus negócios, as suas preocupações, os seus problemas, que vai assistir a uma festa. Entra no salão; e sente que a música o empolga, que as mulheres são belas, estranhas ou misteriosas, que há figuras de uma fisionomia especial, que há outras figuras ridículas que divertem ou entristecem. A noite vai passando e o ambiente dominou o conviva: esqueceu a sua vida para viver, durante várias horas, a vida daquele salão de festas, que não é a sua, mas na qual se integrou momentaneamente. Suponhamos, ao contrário, que ele permanece aí como simples espectador, que continua a pensar e a se inquietar com as suas lembranças e idéias. Então é que a festa era desinteressante, não pudera empolgar os participantes. Com o romance acontece a mesma coisa. O romance é um salão de festas, uma vida à parte na qual entramos de passagem algumas vezes, durante algumas horas. Se a ficção consegue do leitor que esqueça os seus problemas para viver os problemas do romance - então está realizado. Se, ao contrário, o leitor permanece com a sua própria personalidade - então está falhado. Creio mesmo que este é o processo menos abusivo para constatar a existência de um romance.

 

3. UM GESTO NOBRE

Com estes livros, espero atender ao seu refinado gosto literário - termos de uma generosa mensagem de PEDRO LINS ao mero redator desta Coluna.

 

Com muita honra, vim a conhecer, no ano passado, o companheiro PEDRO DE BARROS LINS, filho do notável MESTRE ÁLVARO LINS. Trata-se de um colega aposentado como técnico judiciário que, durante muitos anos, labutou no 23º Ofício de Notas desta Capital (ex-Cartório Márcio Braga). Graças a um gesto nobre de sua iniciativa, tive o privilégio de ler e apreciar uma parte expressiva da obra literária de seu valoroso pai.

Quando estudante, PEDRO LINS teve participação destacada nos grandes movimentos de sua época (em especial, na histórica passeata de mais de 100.000 pessoas em 1968) contra a Ditadura Militar, ao lado de VLADIMIR PALMEIRA, FRANKLIN MARTINS, ELINOR DE BRITO e tantos outros companheiros. E, durante a campanha de nossa Categoria em prol das Leis 793/84 e 934/85, conheceu de perto - dentre outras figuras de expressão - CARVALHO e BETH GATTO, cujos nomes recordou-me com afeto e admiração. As citadas Leis estenderam aos serventuários da Justiça não-remunerados pelos cofres públicos os mesmos direitos então conquistados pelos seus pares do foro judicial, cujas serventias - na sua grande maioria - já haviam sido oficializadas.