O SERVENTUÁRIO Independente
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<< continuação da entrevista com Amarildo Silva >>

SI - Como você vê a atuação da atual diretoria do sindicato ? O que tem sido feito de certo, o que tem sido feito de errado, e o que precisaria, no seu entendimento, ser modificado ?

AS - Existe uma diferença de postura ideológica grande desde o começo, e hoje muito mais ainda. Mas eu não sou o tipo de pessoa que por ser oposição e não seguir as linhas de quem está no poder, sai por aí falando uma porção de coisas, fulano está roubando, é corrupto, etc. etc.Isto não é o meu jeito de fazer política. Agora, eu tenho um monte de críticas de várias coisas, desde as políticas até as administrativas. Eu acho que o maior erro político desta diretoria foi fazer essa parceria esdrúxula com o Poder desde sua primeira gestão. Isso confundiu a classe, num momento em que a classe já estava começando a identificar existe um patrão ali e existe a gente aqui e que cada um puxe pro seu lado, vem a direção do sindicado e diz não, é tudo uma coisa só.

O sindicato passou a ser um departamento do Tribunal de Justiça, e não um organismo independente, da classe, para reivindicar, para brigar quando tiver que brigar, para conversar quanto tiver que conversar. O sindicato perdeu isso não agora, mas desde o primeiro momento desta gestão. Isto é obviamente um erro político.

O erro administrativo do sindicato foi a compra da séde. E eu acho uma coisa legal, apesar de eles sempre terem falado que a oposição era contra a compra da séde própria porque queria ficar naquele corredor. Não é verdade. A séde própria foi uma conquista da classe . Agora, o que aconteceu é que eles transformaram aquilo em um cabide de empregos, criaram um monte de cooperativas a maioria das quais não deu certo.Haja visto a cooperativa de carros, de computadores, a cooperativa de remédios. Abriram uma farmácia que faliu e ninguém explicou o que houve com esta falência. Cobraram imposto sindical dizendo que iam abrir a farmácia para melhorar as condições da classe de comprar remédios.Acontece que esta farmácia faliu e ninguém sabe pra onde foi o dinheiro e não explicaram nada até hoje. A cooperativa de crédito, que é uma coisa que vem dando certo, saiu de lá do sindicato, e hoje tem uma pendenga, pois dizem que o sindicato deve à cooperativa um empréstimo violento que não quer pagar, porque acha que não deve, etc. É um monte de coisas inexplicáveis, e a direção do sindicato não explica nada. E hoje o sindicato está paralisado, totalmente paralisado Fizeram uma bobagem no começo da gestão, de uma disputa com a FASE, e não repassaram pagamentos de planos de saúde. E hoje a FASE ganhou na justiça e tem uma grana violenta para o sindicato pagar. Então isso são erros administrativos, cometidos por eles que sempre se gabaram de ser bons administradores, e no perfil deles o que mais diferenciava da gente era que nós não sabíamos administrar e que eles sabiam administrar.

Só que eu deixei um sindicato, na época, mesmo que sem o patrimônio que tem hoje, sem dívida nenhuma, com um crédito junto à classe, com seis mil filiados, e eles hoje estão desgastando o sindicato. Pelo que eu estou sabendo, as ações estão correndo na justiça. Isto são erros administrativos. Não estou acusando nenhum companheiro de nenhum desvio, jamais faria isto sem provas concretas. Mas eu digo que são erros administrativos, cometidos logo por eles, que sempre se disseram bons administradores.

SI - Em seu entendimento, quais as razões de a categoria estar tão desmobilizada? A última assembléia teve apenas 26 presentes. O que isto representa ?

AS - A categoria não acredita mais no sindicato. É como eu falei antes, a mistura do sindicato com o poder, a categoria vê o sindicato como aliado do Poder e não dela. A categoria hoje não vê o sindicato como aliado dela, mas sim como aliado do Poder. E eles não se preocupam em provar o contrário. A aliança deles com o Poder é uma opção tática . Quando a coisa estava na época das vacas gordas, quando a gente estava com um salário razoável, todo mundo ia deixando passar. Mas a coisa já vem apertando a bastante tempo e na realidade , a categoria começa a sentir que está ruim, o sindicato é que tem que brigar. Só que quando ela vai procurar, não tem mais aquele sindicato que vai brigar. E aí o que acontece ? Ela passa a desacreditar, e o primeiro impulso dela é sair do sindicato, o que é um grande erro. Não adianta sair do sindicato. Se você sai depois você não pode mudar. Mas é um impulso de raiva. Não vou ficar pagando esta porcaria. E é por isto que houve uma desfiliação em massa nos últimos anos. E um monte de derrotas que o sindicato vem sofrendo por causa desta postura errada deles. Aquela greve em que nós fomos derrotados pelo Corregedor que até os diretores foram punidos, foi uma greve que fomos claramente derrotados, e a direção do sindicato - não sei se toda a diretoria - pelo menos o presidente do sindicato sabia, e encaminhou para aquilo.

SI - As eleições para o sindicato devem acontecer em Setembro próximo e, como é sabido, a situação já está se preparando para elas. A oposição já tem alguma coisa definida, que possa ser levada à categoria ?

AS - A oposição vem implementando um programa há mais de um ano. Inclusive todas as mobilizações que aconteceram, foram obra da oposição, o sindicato veio a reboque. Existe a organização da oposição no sentido de lançar chapa, nós temos um programa para a classe, Temos um programa com a nossa visão para resgatar o sindicato, e o que falta definir é aquela dificuldade de sempre : os nomes, os grandes nomes para a chapa.

Na realidade, uma coisa que foi interrompida após minha gestão foi o surgimento de novas lideranças. Há falta de renovação. E a política dos últimos oito anos do sindicato inibiu ainda mais esta renovação e, com isso, eles podem até ficar eternamente .

Então é isto : nós estamos discutindo a viabilidade desse nome, um nome que consiga aglutinar a oposição, um nome que seja uma referência junto à classe.

SI - E desta vez, as oposições irão unidas para as eleições ?

AS - Eu acho que a oposição deve fazer todo o esforço para ir unida para a eleição de Setembro. Na eleição passada, se nós nos uníssemos daríamos um banho... Mas sabe como é : problemas de vaidade, etc.

SI - Como você vê a comunicação do sindicato com a categoria ?

AS - Não existe. Até o jornal mensal do sindicato não tem saído mais. Eu nem me lembro quando foi o último número. Parece que o sindicato não quer isso. O que prova mais uma vez que o sindicato está fisicamente lá, mas na prática ele não existe.

SI - O que é que não lhe foi perguntado e que você gostaria de colocar para a categoria ?

AS - Eu gostaria mesmo é de fazer um pedido para a classe. Eu estou nesta casa há dezesseis anos trabalhando, e desses anos todos, o que me preocupa é a visão despolitizada da classe. Porque a gente só pensa no imediato e não vê a questão política. Isso não existe. Porque na verdade é o lado político que determina nossa dificuldade maior ou menor. Com relação ao sindicato, eu queria fazer um apelo : quem se desfiliou, que volte. Que volte para mudar. As eleições vão acontecer em Setembro, e o prazo para se filiar é agora. Quem saiu volte agora para poder mudar o quadro, e fazer com o sindicato volte a ser a potência que já foi como representante forte e legítimo da nossa categoria.