

HABEMUS NIEMEYER
Não é o ângulo reto que me atrai nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein - OSCAR NIEMEYER.
Deslumbrado, empreendi a leitura de AS CURVAS DO TEMPO, título das Memórias (ilustradas por traços marcantes) do genial OSCAR NIEMEYER. Trata-se de uma obra im-per-dí-vel (como sói realçar DANUZA LEÃO, em sua coluna diária no Jornal do Brasil). Num saudável exercício diletante, selecionei - junto com o texto ímpar do livro, que serve de epígrafe à presente matéria - o conceito social mais tocante desse arquiteto humanista e sua crônica de maior expressão poética. Transcrevo, a seguir, seus termos, indicando, outrossim, a todos os companheiros a compra e leitura geral da obra, editada pela Revan.
I - O CONCEITO:
Sempre acrescentei, nas minhas palestras, que não dava à arquitetura maior importância, e não havia nada de depreciativo nessas palavras. Comparava-a com outras coisas mais ligadas à vida e ao homem, referia-me à luta política, à colaboração que todos nós devemos à sociedade, aos nossos irmãos mais desfavorecidos. O que poderia ser comparado à luta por um mundo melhor, sem classes, todos iguais?
II - A CRÔNICA:
Sempre que viajava de carro para Brasília, minha distração era olhar as nuvens do céu. Quantas coisas inesperadas elas sugerem! Às vezes são catedrais enormes e misteriosas - as catedrais de Saint-Exupéry, com certeza; outras vezes, guerreiros terríveis, carros romanos a cavalgarem pelos ares; outras ainda, monstros desconhecidos a correrem pelos ventos em louca disparada e, mais freqüentemente, porque sempre as procurava, lindas e vaporosas mulheres recostadas nas nuvens. Mas logo tudo se transformava: as catedrais se desvaneciam em branco nevoeiro; os guerreiros viravam préstitos carnavalescos intermináveis; os monstros se escondiam em escuras cavernas para surgirem adiante mais furiosos ainda, e as mulheres iam se esgarçando, se estendendo, transformadas em pássaros ou negras serpentes. Muitas vezes pensei fotografar tudo isso, tão exatas eram as figuras que apareciam. Nunca o fiz. Mas, sempre que viajo, olhar para as nuvens é a minha distração predileta, curioso, procurando decifrá-las como se estivesse em busca de uma boa e esperada mensagem. Naquele dia, porém, a visão foi mais surpreendente. Era uma bela mulher rosada como uma figura de Renoir. O rosto oval, os seios fartos, o ventre liso, e as pernas longas a se entrelaçarem nas nuvens brancas do céu. E fiquei a olhá-la embevecido, com medo de que se diluísse de repente. Mas os ventos naquela tarde de verão deviam estar me ouvindo e durante muito tempo ela ali ficou a me olhar de longe, como a convidar-me para subir e com ela, entre as nuvens, brincar um pouco. Mas o que temia tinha de acontecer. E pouco a pouco a minha namorada foi-se diluindo, os braços se alongando com desespero, os seios a voarem como que se destacando do corpo, as longas pernas se contorcendo em espiral, como se dali ela não quisesse sair. Só os olhos continuavam a me fitar cada vez maiores, cheios de espanto e tristeza, quando uma nuvem maior, densa e negra, a levou para longe de mim. E fiquei a olhá-la, inquieto, vendo-a lutar entre as nuvens que a envolviam, fustigada pela fúria dos ventos que a dilaceravam impiedosamente. E senti como aquela metamorfose perversa se assemelhava ao nosso próprio destino, obrigados a nascer, crescer, lutar, morrer e desaparecer, para sempre, como ocorria com aquela bela figura de mulher.