
A BANDA PODRE DA MAGISTRATURA
Nem sempre fui o homem que sou. Aprendi, em toda a minha vida, para tornar-me o homem que sou. Mas nem por isso esqueci o que fui-
ARAGON, um poeta da humanidade e militante da resistência francesa ao nazi-fascismo.
Em seu livro HISTÓRIAS DE UM REPÓRTER, o saudoso EDMAR MOREL, um dos mais atuantes, destemidos e estimados jornalistas da imprensa brasileira no século XX, conta-nos diversos episódios significativos transcorridos ao longo de sua brilhante carreira. Um deles passou-se em Fortaleza, sua cidade natal, e foi assim descrito pelo autor:
Ainda estava na memória do povo o brutal assassinato de Antônio Drummond, diretor da Gazeta de Notícias, que chamara de "queratinoso" o juiz de Direito Virgílio Gomes. O magistrado lavou a honra ultrajada retirando da cadeia três celerados e, à frente do grupo, dentro da noite, fuzilou o jornalista na sua mesa de trabalho. O crime teria ficado impune se a Revolução de 1930 tivesse fracassado. Os vitoriosos da Aliança Liberal apressaram o julgamento, e Virgílio Gomes foi condenado a trinta anos, morrendo na prisão, onde aprendeu o ofício de tipógrafo, enquanto, na juventude, fora barbeiro.
Outro episódio registrou-se em 1952, quando EDMAR MOREL foi convidado a participar de uma delegação brasileira que visitou a União Soviética. Estávamos em plena guerra fria e, em nosso país, a polícia efetuava prisões políticas em massa, na época da GUERRA DA CORÉIA e das eleições para o CLUBE MILITAR, onde a chapa nacionalista ESTILLAC LEAL e HORTA BARBOSA concorria à reeleição. Transcrevo, a propósito, as palavras do autor:
O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e outros órgãos públicos criaram toda a sorte de dificuldades para obtenção dos vistos nos passaportes dos membros da delegação brasileira. Foi preciso que o juiz Cristóvão Brainer, ao conceder o mandado de segurança impetrado pelo grupo, interrogasse os dirigentes do DOPS: - Que autoridade tem um funcionário do governo para proibir a viagem de um cidadão brasileiro em pleno gozo de seus direitos assegurados pela Constituição? Com a ajuda da Justiça foi furada a Cortina de Ferro da polícia carioca. A viagem foi anunciada pelos jornais e logo surgiu uma sórdida campanha contra a União Soviética, apontando a delegação brasileira como um antro de agentes subversivos.
Mas, em contraste com a isenção e probidade do eminente magistrado que foi o desembargador CRISTÓVÃO BRAINER, EDMAR MOREL (a quem devemos o relato histórico da REVOLTA DA CHIBATA) revela-nos, em termos inequívocos, a incompetência e o retrato-moral de um juiz (?) que, em 1954, foi leniente - para não dizer conivente - com a quadrilha dos gangsters do leite:
Outra reportagem de impacto foi sobre a contaminação do leite. Naquela época o leite era vendido em carros-pipa, modalidade que facilitava a adulteração do produto - com água, farinha de trigo, sal, açúcar e até urina humana que, por ter a mesma densidade do leite puro, não é facilmente detectável. Não foi fácil desbaratar a quadrilha dos gangsters do leite, responsável pela morte de 2.500 crianças por ano, no Hospital de Tóxicos do bairro da Alegria e em creches públicas. O grupo era forte economicamente, contando com o apoio do corrupto Luís Freire Fausto, vulgo Dr. Fausto, notório freqüentador dos dancings da Avenida Rio Branco, onde gastava rios de dinheiro com as mundanas. Ele era simplesmente o fiscal do Serviço de Fiscalização do Leite da Saúde Pública.
Denunciado publicamente, este Dr. Fausto moveu processo contra o jornalista na 11ª Vara Criminal. Meu advogado foi o criminalista Serrano Neves. O objetivo do processo era silenciar a campanha. Continuei a série de reportagens. Levei a polícia ao covil dos gangsters, na rua da Passagem, 127, Botafogo, onde o chefe era Ângelo Lopes de Almeida, português, com antecedentes criminais. Foram presos 28 destes traficantes, todos lusitanos.
Aí aconteceu o inesperado. O juiz Anselmo de Sá Ribeiro, da 25ª Vara Criminal, mandou soltar os marginais sob o pretexto de que leite misturado com água e sal não matava ninguém. Em companhia do fotógrafo Jankiel voltei ao Hospital de Tóxicos, e o jornal publicou a foto de quarenta crianças entre a vida e a morte em conseqüência das doenças causadas pelas impurezas do leite. Dirigi um apelo à Sociedade Brasileira de Pediatria, e os depoimentos dos médicos Rinaldo De Lamare, Hamilton Fontes, Elvira Guimarães e outros foram terríveis libelos contra a atitude do juiz que fechava os olhos a um crime hediondo.
Os leiteiros, com muito dinheiro, corrompiam meio mundo.
Voltei à carga atacando frontalmente o juiz Anselmo, publicando a manchete: "O preço da liberdade dos envenenadores do leite é um montão de cruzes de inocentes!".
Um leitor de Última Hora mandou pelo Correio foto de um curandeiro montado nas costas do juiz Anselmo de Sá Ribeiro. O magistrado foi avisado. Ei-lo quase chorando e se jogando aos pés de Samuel Wainer para que a desmoralizante foto não fosse publicada. Samuel poderia ter arrasado a vida pública do juiz, mas não o fez, proibindo a publicação da foto, num gesto de humanidade. Logo depois o magistrado revogou a ordem de liberdade dos malfeitores, mas a maioria havia fugido para Portugal. O lado positivo da história: a Saúde Pública proibiu a venda do leite em carro-pipa e o jornalista foi absolvido nos processos.