ABUSO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

CONCILIANDO INTERESSES DOS TRABALHADORES E EMPREGADORES

                                                                                                                              ROSIMAR      GIRÃO

Nós, profissionais de área humana, atuantes em instituições públicas ou privadas, a todo momento somos convocados a intermediar interesses entre empregador e trabalhador. E, de antemão, já experimentamos o peso da parcialidade inerente a nossa também condição de trabalhadores submetidos ao mesmo empregador. Não podemos negligenciar os compromissos éticos para com os usuários de nossos serviços, e tampouco o acordo trabalhista pactuado no ato da assinatura do nosso contrato de trabalho. Diante disso só nos cabe exercer de maneira coerente esse papel de intermediador, partindo dos aspectos vulneráveis que permeiam essa correlação de forças, isto é, naquilo em que o uso de drogas afeta as estruturas de um e outro universo(instituição e trabalhador).

Os custos financeiros são o grande sinalizador de perdas para a empresa e isso é facilmente mensurável. Portanto, o mesmo motivo que demanda a exclusão do usuário de drogas do quadro de pessoal das instituições, demanda a implantação e manutenção de Programas de Atenção, com o acréscimo vantajoso para a instituição do cumprimento de sua responsabilidade social. Isto quer dizer que, nos dias atuais, diante de um novo perfil de mercado, em que a lei da oferta e procura é regida pela superabundância, o "turn over" pode ser muito mais caro, já que a possibilidade de se admitir novos trabalhadores, também usuários de drogas é bastante alta. Há que se considerar ainda que esse exército de demitidos, de um jeito ou de outro, irá bater em nossas portas em forma de custos sociais. Afinal, à população é atribuída a responsabilidade de atenuar a pobreza por meio do pagamento de altos impostos.

Do mesmo modo, os motivos que justificam a autonomia do cidadão trabalhador, sua liberdade de escolha, inclusive a escolha de drogar-se, são os mesmos a serem explorados para impacta-lo motivando o redirecionamento de sua escolha. Trata-se do valor psicossocial do vínculo empregatício. Estar empregado é sinônimo de inclusão Social. Essa inclusão implica em satisfação das fomes básicas de Produtividade, Pertinência e Identidade. Se o indivíduo é produtivo, pode se apropriar de seu lugar no mundo(nos grupos primários e secundários). Ao tomar seu lugar, estabelece auto-referenciais e estrutura a sua identidade. Assentar-se sobre sua identidade possibilita a ele a experiência do sentido de dignidade, ainda que não se aperceba disso. Essa psicodinâmica pode tornar um simples vínculo empregatício, uma potente ferramenta de reorganização pessoal e funcional, já que o uso de drogas pode ameaçar o emprego, e com ele a perda desses referenciais existenciais.

Então, um Programa Interno de Atenção ao Uso de Drogas, além de contribuir para o resgate da dignidade desse trabalhador, tem como objetivo garantir a convergência entre seu direito à assistência e os interesses de produtividade da organização á qual está vinculado.

Essa convergência de interesses pressupõe o desenvolvimento de ações no sentido do estímulo aos potenciais individuais de saúde do trabalhador, do cumprimento do papel social da Empresa e do controle dos reflexos da assistência sobre o desempenho sócio-funcional desse trabalhador.

Já vimos em linhas gerais o por quê e o para quê. Agora vamos ver como se pode estruturar um programa de atenção ao uso de drogas nessas instituições.

Um Programa de Atenção ao Uso de Drogas em locais de trabalho deve contemplar as dimensões educação/prevenção; assistência; controle, inibição e repressão ao consumo no âmbito da instituição, bem como o controle estatístico. Todos esses aspectos devem estar sintonizados no sentido da otimização de seus resultados. É fundamental a compreensão de que quando um programa funciona, isto é, consegue trazer resultados favoráveis para a instituição e para o trabalhador, a própria instituição perceberá crescer o nível de adesão, respeitabilidade e credibilidade por parte desse trabalhador em relação a ela , e não é preciso dizer que conquistas isso pode viabilizar.

Falemos então sobre cada um desses aspectos, e de suas possibilidades metodológicas.

Educação e Prevenção

A educação e prevenção pressupõe, necessariamente, informação ,capacitação de gestores e de multiplicadores de prevenção, e acima de tudo a redução de demandas. Detalhemos cada tópico.

Informação - todos os trabalhadores da instituição devem ter acesso à informação. Informação sobre as drogas e seus efeitos; sobre como podem afetar o desempenho de suas tarefas e a sua vida de um modo global; sobre como a instituição está posicionada em relação ao assunto; etc.

Capacitação - em local de trabalho é preciso estabelecer parcerias com os diversos setores e posições de trabalho. A parceria mais fundamental neste caso é com as chefias imediatas, e seus correlatos. Estes são imprescindíveis no processo de acompanhamento e de monitoramento dos reflexos da assistência sobre o desempenho funcional.

Via de regra os gestores desconhecem esse assunto e costumam assumir a postura de "perseguidores" ou "salvadores", o que, em ambos os casos, é improdutivo. A capacitação para esse público deve conter basicamente informações sobre as drogas e seus efeitos sobre o organismo; a psicodinâmica do usuário abusador de drogas; a dependência química e seu caráter progressivo; condutas que facilitam o abuso, a doença e a recuperação e sobre a recaída e suas repercussões no local de trabalho.

Com esse conjunto de informações é muito comum que as condutas improdutivas acima mencionadas, sejam reduzidas consideravelmente, culminando em maior credibilidade e aumento da procura ao Programa Interno, tanto por parte dos gestores quanto dos usuários do Programa. A prática tem mostrado que quanto mais capacitados os chefes maior o índice de recuperação e melhor a reinserção sócio-funcional do trabalhador assistido.

A capacitação de multiplicadores também é outra estratégia eficaz, sobretudo quando se trata de instituições de grande porte e ampla abrangência geográfica, onde os postos de trabalho se distribuem por bairros, municípios ou mesmo estados. Esses multiplicadores devem ser selecionados criteriosamente, e suas atribuições devem estar claramente definidas, restringindo-se à multiplicação de informações educativas e, em alguns casos, incluindo a atribuição de encaminhar ao Programa Interno de Atenção as demandas identificadas. Essa definição clara de atribuições visa evitar ingerências inadequadas sobre a vida das pessoas resultando em complicações para o clima organizacional. O aspecto positivo é que a equipe ganha "braços", otimiza o tempo e os resultados.

Redução de demanda - compreende a perspectiva ideal, embora ainda pouco usual no contexto organizacional ou, ao menos, dissociada do rol das ações de educação e prevenção . Trata-se de uma perspectiva voltada à criação de fontes alternativas para o fomento à qualidade de vida. A redução de demanda envolve qualquer ação que proponha diminuir o interesse pela droga entre as pessoas e grupos sociais.

A Assistência

A assistência pode ser organizada em dois segmentos: acompanhamento interno e acompanhamento externo.

O acompanhamento interno compreende as abordagens individual, grupal e funcional.

Abordagem individual - se refere aos contatos inicial e seqüencial com o trabalhador assistido.

Abordagem grupal - bastante comum nos ambientes de trabalho , deve privilegiar o processo de reeducação por meio do estímulo aos potenciais individuais, já tão comprometidos em virtude de um padrão de resposta compulsivo frente à vida. Essa abordagem grupal poderá ser mais produtiva se organizada em um programa pré-estabelecido cronológica e metodologicamente, o que contribui para evitar os risco de reforçar traços característicos dos abusadores de drogas como, por exemplo, a perda de limites. Além disso, a definição de um prazo para as saídas dos postos de trabalho para participar dos grupos favorece o planejamento da rotina de trabalho daquele empregado, e da própria unidade, em função de sua ausência temporal. A abordagem funcional é outra etapa de suma importância no processo interno de assistência e envolve o acompanhamento direto do desempenho funcional, tomando-se sempre como referência a situação anterior à inserção no programa. Há, entretanto, situações em que inexiste antecedentes funcionais negativos. Nesse caso toma-se como referência a queixa que motivou a busca ao Programa, seja ela em que área da vida do indivíduo for. Contudo não se pode perder de vista que quando se trata de local de trabalho, a ingerência do Programa se restringe ao universo do trabalho.

Quanto ao acompanhamento externo, trata-se do gerenciamento do tratamento clínico especializado que está sendo realizado através das redes credenciadas, ou em âmbito interno, quando houver, pela equipe multiprofissional responsável pelo Programa.

É comum ouvir-se falar em tratamento na Empresa. E nesse sentido há uma confusão básica. Não se pode pensar o processo de assistência, que envolve também o tratamento, sem considerar a missão da instituição. E, se a missão da instituição for diferente de prestar assistência a dependentes químicos ou a problemas decorrentes do uso e abuso de drogas, depreende-se que a assistência consiste em atividade meio, e não atividade fim. Nesse caso, é congruente que a empresa disponibilize os recursos para o tratamento especializado, evitando realizá-lo internamente. A execução interna das outras etapas da assistência se justificam em virtude de envolverem mais restritamente o universo funcional desse empregado.

O Controle, Inibição e Repressão do Consumo de Álcool e Outras Drogas Dentro e/ou Fora Da Empresa.

Quando utilizamos a expressão "fora da empresa" estamos considerando apenas o espaço físico. Trata-se aqui de medidas aplicáveis ao trabalhador, cujas atribuições, requerem o trabalho externo.

O êxito de um Programa de Atenção ao Uso de Drogas depende, necessariamente, da adesão institucional, a qual deve ser expressa por meio de uma política clara e objetiva que preveja a edição de normas reguladoras desse consumo, bem como de medidas disciplinares e administrativas aplicáveis nos casos de transgressões.

Diversos autores apontam o fato de que medidas restritivas promovem uma redução acentuada no consumo de drogas ou nas conseqüências graves desse consumo.

O Controle Estatístico

O controle estatístico assegura a adequação dos rumos dados ao programa. Isso se refere não apenas a sua manutenção, mas também à otimização da assistência oferecida e o conseqüente investimento na capacitação técnica da equipe. O controle estatístico é o medidor na relação custo-benefício do Programa. Para melhor apreensão dos reflexos da assistência sobre cada caso, convém que se analise a situação inicial e após o cumprimento de todas as etapas do programa.

Conclusão

Não há, definitivamente, fórmulas únicas ou exatas para a solução desse problema tão subjetivo e de cunho multifatorial. Entretanto, há que se considerar que sua complexidade não o torna insolúvel e nem impenetrável. Significa apenas que, no contexto organizacional, ou qualquer outro, a consideração do problema deve se dar à luz das diversas dimensões que concorrem para sua existência. E, nesse sentido, a tríade indivíduo - produto - conjuntura social forma o solo fértil para todas as sementes com as quais estiver identificada. Cada um desses pilares contém uma infinidade de ecofatores que o torna único e, combinados, geram variáveis exclusivas e fascinantes em toda sua complexidade, pelo simples fato de se relacionarem à vida e ao viver.

ROSIMAR GIRÃO

Assistente Social lotada Vara Única de Cordeiro/RJ

Terapeuta Familiar

Especializada em Assistência Psiquiátrica

Formação em Dependência Química e Assistência ao Trabalhador, Análise Transacional e Ecologia Humana

Facilitadora de Biodanza

e-mail: rosimarg@yahoo.com.br

rosig_francig@hotmail.com

 

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O SERVENTUÁRIO Independente
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