Amarildo Silva desabafa...
O SERVENTUÁRIO Independente : Você assumiu a presidência do Sind-Justiça há aproximadamente três semanas. Você encontrou o sindicato em que situação ? Melhor, igual ou pior do que você imaginava ?
Amarildo Silva : Na verdade, muito pior , infinitamente pior do que eu pensava. Eu já pensava que era um caos, pois durante a campanha recebemos denúncias da categoria, de irregularidades que havia aqui dentro.Eu achava que fosse pegar uma dívida aí por volta de no máximo um milhão de reais. E já era um susto para mim. Só que hoje esta dívida vira quatro milhões de reais. Na verdade, estamos todos aqui em estado de choque, com essa bagunça administrativa em que estava o sindicato. Aliás, o sindicato hoje não só está falido. Como resultado das dívidas que a diretoria anterior contraiu, o sindicato, hoje, nem nosso é mais, ou pode a qualquer momento deixar de ser nosso.
E pretendemos comprovar, pela auditoria que vamos começar a fazer aqui dentro de aproximadamente quinze dias, quando esperamos que já esteja uma empresa auditora independente aqui dentro, a falta de ética com que este grupo administrou o sindicato nestes oito anos em que esteve aqui.
E não foi só falta de ética não. Foi também falta de compromisso. Na verdade, eles não tinham nenhum compromisso com a nossa categoria. O que a gente está encontrando aqui mostra isso claramente. O sindicato tem uma dívida que o patrimônio dele todo não cobre acho que nem a metade - e eu não sei como é que eles conseguiram contrair tudo isso de dívidas . E eu acho que, no último ano mais ou menos, a única coisa que eles pagavam aqui era a folha de funcionários. Os pagamentos restantes estavam todos parados, havendo dívidas de planos de saúde, de seguros, tipo assim de dez meses atrás, com faturas exorbitantes. Nós temos dívidas aqui até bizarras, tipo assim : R$ 19.000,00 de despesas de correios, R$ 33.000,00 de contas telefônicas, havia contas de telefone aqui sem pagamento há quase um ano. Nem o fornecimento de material, tipo papel higiênico, etc., e até as coisas mais simples não eram pagas, os pagamentos estavam todos suspensos.
O sindicato tem vários títulos protestados na praça, e estava devendo até onde tirava xeroxes. O sindicato não tinha mais crédito em lugar nenhum, nem com a firma onde tirava as xeroxes.
Isto é uma coisa que me deixa deprimido, deixa triste a nossa diretoria toda, que está tocada com esta situação. É claro que eu estou fazendo aqui até um desabafo, pois eu não tenho como responsabilizar ninguém neste momento pois não tenho as provas que preciso, a auditoria é que poderá me trazer isto. Mas , evidentemente há, no mínimo, uma falta de compromisso com os interesses da categoria.
SI - Segundo foi dito na assembléia de 15/10, o maior débito existente é com o Bancoob. Como dinheiro não tem pernas, nós gostaríamos de saber que caminhos ele tomou, e se há documentos que comprovem as operações .
A.S. - Nós tivemos uma reunião ontem, dia 17, da diretoria executiva do sindicato inteira com a direção da cooperativa. A nossa posição de suspender o pagamento ao Bancoob tinha dois motivos : o primeiro motivo, que tinha a ver com um empréstimo de R$ 360.000,00 que foi feito às vésperas das eleições sindicais a título de antecipação de receita. Pois o sindicato não tinha como movimentar a receita então o Bancoob antecipava e depois, quando o repasse vinha do TJ o Bancoob pegava. Nós suspendemos isto para que nós pudéssemos utilizar a receita. Eu não posso administrar o sindicato e seus compromissos sem ter receita. Esta é uma discussão. Eu suspendi os cheques e só vou voltar a pagar quando tiver condição. E o segundo motivo, bem maior, foram dois contratos anteriores a este, contratos já antigos, que chegam mais ou menos a dois milhões de reais. São prestações que hoje estão em torno de R$ 54.000,00, e que nós também suspendemos. Estes pagamentos foram suspensos porque nós não tínhamos clareza de onde este dinheiro estava. Pois quando nós entramos aqui e começamos a mexer na contabilidade e fomos tomando pé destas dívidas todas, nós começamos a ver o seguinte : se os empréstimos estavam registrados nos livros contábeis, se entrou em conta bancária do sindicato, e na contabilidade não havia nada. Não entrou em livro nenhum, em nenhuma época, aqui. Então, a partir daí, eu já sustei. E também nós não tínhamos certeza de se teria entrado na conta do Banerj, ou do sindicato, em que conta foi, etc., uma coisa muito complicada. A partir desta suspensão o Bancoob, claro, pressionou .Nós tivemos uma reunião na semana passada em que a diretoria do Bancoob, através do Sr. Peixoto e da D. Ivênia, afirmou que eles tinham toda a documentação referente a todos os empréstimos feitos ao Sind-Justiça e que, se havia problemas aqui , isto era problema interno do sindicato.
Então, eu fiz o seguinte : convoquei uma reunião da diretoria do Bancoob com a diretoria do sindicato , que foi realizada aqui, ontem. Nessa reunião eles, de fato, comprovaram , passo a passo, os empréstimos feitos, as aplicações feitas pelo sindicato, etc. Então, na verdade, o Bancoob emprestou o dinheiro. O sindicato, na verdade, deve este dinheiro ao Bancoob. A forma como este dinheiro veio para cá é que é questionável, pois existia uma relação meio incestuosa entre o sindicato e a cooperativa. Havia diretores do sindicato que eram também diretores da cooperativa. Inclusive o diretor administrativo do sindicato, em determinada época, chegou a ser presidente da cooperativa. Era uma coisa, assim, de botar você no chão, de choque.
Mas o dinheiro entrou .Então, a minha discussão hoje , em reunião que vou fazer com a diretoria, é no sentido de retornar, de regularizar estes pagamentos. De qualquer maneira, mesmo se nós retomarmos os pagamentos desses dois contratos, o resultado que a auditoria me trouxer vai estar também envolvendo isto , pois se a auditoria me comprovar que estes contratos tiveram procedimentos não compatíveis com a ética nós vamos poder, inclusive, questionar a validade destes contratos e poderemos tentar argüir juridicamente a sua nulidade .
SI - Com relação ainda a este assunto, a Cooperativa convocou uma assembléia geral extraordinária para o próximo dia 22, na qual pretende obter a ratificação dos dois contratos objetos desta discussão. Qual a sua visão sobre isto ?
A.S. - Os dois contratos a que ela se refere são exatamente os dois contratos com o sindicato. A cooperativa, quando viu que a oposição ganharia o sindicato, já começou a chamar isto. Na verdade, apesar de eu reconhecer que o dinheiro foi emprestado ao sindicato, eu questiono esta relação da cooperativa com o sindicato.É uma relação viciada, uma relação que não tinha padrão ético nenhum. Eu questiono pelo seguinte : porquê não colocaram isto durante a gestão passada, e só estão fazendo isto agora, muito tempo depois ? E não é nem por causa do pagamento, pois a diretoria do César não vinha pagando isto faz muito tempo. Ele assinava os contratos, reconhecia as dívidas, etc., mas não pagava. E agora está nas minhas costas para eu pagar...
Eu sou cooperativado, também, sou filiado à cooperativa, mas eu vou à assembléia para defender a posição do sindicato.
Eu acho o seguinte : que os cooperativados têm que entender que todos eles são filiados ao sindicato. Então nós temos que saber quem é mais importante , a cooperativa ou o sindicato ? Qual poderia quebrar, se fosse o caso ? A cooperativa , eu acho, talvez não tenha condições financeiras de suportar um baque, hoje...mas e o nosso sindicato ? Assim, eu acho que o mais complicado, hoje, que precisa urgente de salvação, é o nosso sindicato. Uma salvação financeira, moral e política. Eu entendo que o conjunto da categoria deveria estar voltado, hoje, para esta preocupação. Até porquê, se este sindicato for a pique, como deixou a diretoria passada, e a gente não tiver uma entidade que brigue pelos nossos interesses, como é que se vai botar dinheiro na cooperativa sem ter salário ?
Então, esta discussão está errada. Eu tenho recebido muitas reclamações de associados da cooperativa ,afirmando que ela, cooperativa, está dizendo que o sindicato está quebrando a cooperativa. Nada disso... o sindicato está defendendo a sua sobrevivência. O sindicato não está interessado em afundar a cooperativa, muito pelo contrário. Eu não tenho nada contra a cooperativa. Agora, eu não vou deixar que nenhum organismo, seja ele a cooperativa ou seja qualquer outro, venha destruir uma entidade que nós criamos com muita luta, com muito esforço, com companheiros que deram até a vida por isto aqui. E eu não vou deixar que o sindicato vá ao chão por causa do interesse mesquinho de algumas pessoas.
O sindicato hoje está falido, e pode até perder seu patrimônio ...
