Fernandinho Beira-Mar para presidente
Carlos Chagas
( Coluna publicada na Tribuna da Imprensa em 14 de Setembro de 2002 )
BRASÍLIA - É conhecida a história de Alexandre e do nó
górdio. Vitorioso na conquista do mundo grego e da Pérsia, virou
moda entre seus aliados, e mesmo entre os que havia derrotado, submetê-lo
a provas de perspicácia, inteligência e coragem. Mostraram a
ele um nó mais complicado do que os nós de marinheiro, daqueles
impossíveis de desfazer.
Caso não conseguisse, ficaria demonstrado não ser assim tão invencível. Alexandre olhou o nó e nem se abalou diante da impossibilidade de desatá-lo com as mãos. Simplesmente puxou da espada e, num único golpe, dividiu a corda em duas.
Bandidos deveriam ir para a Amazônia
Em matéria de segurança pública, está na hora
de um gesto assim, importando menos se Alexandre já se foi, porque
o exemplo permanece. Alguém precisa desembainhar a espada e cortar
pela raiz o crime organizado. Passou a hora de ficar olhando o nó e
fazendo mil tentativas para desfazê-lo pelos métodos ortodoxos.
Não vai adiantar. Para evitar que a sociedade permaneça dominada
e amarrada aos mandamentos do banditismo, só cortando o nó.
Não engana mais ninguém essa história de que só pela educação nos livraremos da desagregação social. Por certo que a médio e a longo prazos é a solução, mas, para viabilizá-la e colher seus frutos, transcorrerão algumas gerações. A questão da segurança pública é premente. Exige iniciativas imediatas, acima e além da ortodoxia institucional. No caso, a ação cirúrgica e conjunta das hoje desmoralizadas autoridades públicas, sejam federais, estaduais ou municipais.
Para começar, haverá que reunir esse bando de animais hoje hospedados e dominando as cadeias públicas, isolando-os em alguma ilha deserta ou região isolada da selva amazônica. Cercados pela própria natureza, mais do que por tropa armada e embalada. Que se virem, isto é, se quiserem comer, que pesquem. Está chovendo? Construam suas cabanas. Entram em choque os diversos comandos e quadrilhas? Que se destruam.
Querem comunicar-se com asseclas do lado de fora? Só através de sinais de fumaça, jamais com telefones celulares. Por quanto tempo devem permanecer no isolamento? Pela vida inteira.
A lei não permite? Que se mude a lei,
com o respaldo da unanimidade do meio social. Direitos humanos? Primeiro os
do cidadão, para que possa voltar a andar pelas ruas sem ser assassinado
ou permanecer seguro em sua casa, livre de invasões.
A partir daí o cerco ao narcotráfico, ao contrabando, aos bandos
ainda em liberdade, especializados em seqüestros e assaltos. Atacá-los
onde puderem ser localizados e onde estiverem instalados, para enviá-los
de pronto para a ilha ou para a floresta, logo que presos e sumariamente julgados
culpados.
Já vivemos em estado de guerra
No passado não muito distante fizeram isso com presos políticos,
um abuso evidente praticado pela ditadura. Pois a democracia deve demonstrar-se
preparada para utilizar métodos semelhantes contra aqueles verdadeiramente
integrantes do crime organizado. A sociedade não recusaria apoio, sequer
se negariam a colaborar aquelas comunidades hoje dominadas pelo banditismo,
desde que defendidas e garantidas contra represálias. Como? Pela ocupação
permanente dos territórios conflagrados e a extirpação
gradativa dos focos identificados.
Tudo isso caracterizaria um estado de guerra, mas não será precisamente uma guerra o que vivemos hoje? Ligações, ramificações, cumplicidades - tudo seria capaz de surpreender, mas, surpreendendo, despertaria maior indignação e disposição de cortar o mal pela raiz. Melhor dizendo, desatar o nó pela espada.
Importa menos lamentar o passado e incriminar quantos, podendo ter agido, mantiveram-se estáticos. Não faz muito o presidente reuniu os quatro principais candidatos à sua sucessão para exigir deles o compromisso explícito de cumprimento dos acordos assinados com o FMI. Mais necessário seria promover outro encontro para a imediata celebração de um pacto de ação contra o crime organizado. Três meses e meio da atual administração não podem ser perdidos, imagine-se então os próximos quatro anos. Entre Luiz Inácio da Silva, José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho, perderia votos aquele que se negasse a cooperar.
Sonhos de noite de verão? Pode ser, mas
para evitar o pesadelo que nos assola não há alternativa. Ou
o poder público acorda e parte para uma operação de imediata
salvação nacional ou breve a nação terá
sido posta em frangalhos. Fernandinho Beira-Mar para presidente poderá
tornar-se mais do que uma ameaça...