Homenagem a CARLOS CHAGAS, grande mestre do jornalismo BRASILEIRO !
O SERVENTUÁRIO Independente
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Mercado: invenção de governantes espertos

Carlos Chagas

Transcrito da TRIBUNA DA IMPRENSA de 02 de Janeiro de 2003


BRASÍLIA - Cada vez mais a gente fica pensando se o chamado mercado não está para a economia brasileira mais ou menos como Geórgias de Leontino sustentava na Grécia pré-socrática que os deuses estavam para a plebe. Porque os deuses, dizia o filósofo, eram mera invenção de governantes espertos para explorar a plebe e preservar o poder.

Especulação progride sem restrições


Lê-se nos jornais que o mercado está reagindo ao discurso nem um pouco revolucionário mas um tanto reformista e duro pronunciado por Lula depois de receber a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique. Por conta disso, a cotação do dólar subiria um pouco, hoje, ao tempo em que a Bolsa de Valores de São Paulo continuaria em ligeira queda. Desvalorizam-se os títulos do Brasil lá fora e a especulação progride sem restrições, é claro.

Ora bolas, será novidade, ou surpresa tão importante, ouvir do novo presidente que vai mudar o modelo, mesmo em doses homeopáticas? Ou pretenderiam o novo governo como uma pinguela, por onde continuariam transitando os malandros que se locupletaram com as diretrizes de política econômica do governo que passou? Pretendem o mercado como um feudo, senhor da política econômica, onde nem o presidente da República poderia chegar?

Tudo balela, tudo armação de especuladores espertos para continuarem ganhando à custa da riqueza nacional. Porque as principais diretrizes da política econômica do governo Lula já haviam sido anunciadas pelo novo ministro da Fazenda, Antônio Palocci: cumprimento dos acordos internacionais, preservação do superávit primário, combate férreo à inflação, inclusive a atual. Equilíbrio entre receita e despesa, e nenhuma aventura que implique em gastos a descoberto.

Seria preciso dizer mais? Ou querem que o novo presidente do Banco Central venha a se declarar em oposição ao novo governo, desdizendo não apenas o que disse Palocci, mas, agora, o próprio Lula?

Mercado é clubinho de vigaristas


Na verdade, é a mesma história de sempre. Falam do mercado como se fosse um ente esotérico e cabalístico, detentor de todas as verdades e senhor dos destinos universais. O fato é que se trata apenas de um clubinho de vigaristas. De uma quadrilha empenhada em auferir lucros através do assalto ao bolso do cidadão comum.

Quem paga o prejuízo da alta do dólar a não ser o povão, que assiste a alta de preços de mercadorias e serviços sem a menor relação com a moeda americana? Conseqüências da globalização, rebatem malandros e inocentes úteis, como se o fato de poderem transferir em questão de minutos uma especulação de São Paulo para as Ilhas Caymann, ou de Hong-Kong para Assunção do Paraguai, significasse algo mais do que levar madeira da Espanha para o Extremo Oriente e de lá trazer especiarias para os portos europeus, na era dos navegadores. Não mudou nada, só aumentou a ingenuidade de uns e a velhacaria de outros.

Lula já deixou claro que não fará revoluções em nenhum setor de ação do seu governo, servindo apenas como desculpa para aumentar lucros a dúvida a respeito dos rumos a adotar. Ainda mais porque o único programa novo anunciado é o de combate à fome, que o ex-presidente Fernando Henrique minimizou e acentuou ter praticado há muito tempo.

No fundo o que os especuladores demonstram é pânico de ser interrompida a especulação. Por isso criam um artificial clima de incertezas e até de terror. Existirá sempre alguém para pagar a conta, ou seja, a população brasileira.

Tivesse o novo governo a coragem que parece não ter, e deveria Lula, ou pelo menos Antônio Palocci, haver anunciado um programa nacional de combate à especulação, tão importante quanto o de combate à fome. Sem truculências, até, porque basta relacionar o quanto estão lucrando os especuladores e aplicar-lhes a devida taxação, aquela adotada no mundo desenvolvido. Seria bom se prometesse o fim dos privilégios e das benesses hoje concedidas ao mundo financeiro, em detrimento do setor produtivo.

Pode ser que o alto comando petista, apenas de mentirinha, tenha dado sinais de que não mudaria nada, mas essa é uma questão para a próxima semana. A esperança, diz o chavão, é a última que morre. Matar a esperança de 52 milhões de eleitores pode ser mais perigoso do que ficar cedendo às imposições desse falso mercado que nos assola.