
FH Lula da Silva
( coluna de Fritz Utzeri no JB de 26.01.2003)
Você também votou no Lula e não entende o que está acontecendo? Ou será que sou só eu? Pensei que o PT chegasse ao poder como o fez Mitterrand, depois de perder sucessivas eleições. Com um programa pronto, com impacto nos 100 primeiros dias. Que revelasse aos cidadãos a triste situação do Brasil e atacasse logo, em profundidade, os nossos problemas econômicos, sociais e políticos.
Mas não é o que se vê. Assistimos, até aqui, a
uma reprise requentada, e de má qualidade, do governo FH, com alguns
toques de populismo, como o Fome Zero, projeto necessário, mas limitado
e que não chega sequer a ser um plano e sim uma intenção
meio perdida na discussão entre os encarregados de resolvê-lo,
enquanto os famélicos continuam sonhando com comida, educação,
atividade econômica, emprego etc.
Lembram-se da campanha eleitoral? Com um prefixo musical de dar inveja a telejornal americano, a câmera dava uma panorâmica em uma enorme sala onde dezenas de pessoas trabalhavam em laptops, discutiam e comparavam planilhas e projetos. Era a equipe de Lula preparando, tim-tim por tim-tim, o plano de governo. A impressão é que havia resposta para tudo (ou quase). Ganha a eleição, veio a transição. Lula afagou FH o tempo todo e apresentou ao país algumas vagas insinuações e muitas pastas de papel. Começou o governo e até aqui não há projeto algum definido ou anunciado.
Mas há uma área em que o controle continua firme e mais ortodoxo do que nos tempos do FH. Fala-se em autonomia do BC, e o Copom, em sua primeira reunião pós Lula, aumentou a taxa de juros para 25,5% ao ano (o que, para nós, resulta em algo em torno de 180% anuais no cheque especial). O PT, como oposição, sempre lutou contra as altas taxas de juros, que inibem a produção e favorecem a especulação. O que está acontecendo? Lula justifica a alta dos juros fazendo uma metáfora. Diz que mesmo mudando de médico, às vezes, é preciso insistir nos remédios receitados ''pelo médico anterior''.
Começo a achar que, durante anos, fui enganado pelo PT e por expoentes da esquerda, como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Aloísio Mercadante, e outros menos votados, que juravam que o modelo econômico de submissão aos ditames do FMI (incluindo os juros altos), ao endividamento externo e à má distribuição de renda eram responsáveis primeiros por nossas mazelas econômicas e sociais. Desse ponto de vista, ''o médico anterior'' estava envenenando o paciente em lugar de tratá-lo. Mas no Brasil há uma confusão entre os conceitos de remédio e os de veneno. Quantas vezes você já não ouviu dizer que alguém ia dar um ''remédio'' para matar larvas ou ratos? Temo que o inconsciente de Lula esteja misturando as estações.
Do jeito que está, ou mentiram pra nós e caímos como patinhos (vai ver que o modelo é tão bom que deve continuar por muitos e muitos anos ainda, e teremos que agradecer aos Boston e Citibank da vida), ou estão apenas enganando e dando corda ao capital especulativo para abatê-lo quando ficar provado que não funciona. Dá pra acreditar?
No primeiro mês de Lula assistimos a um desencontro entre o ideário do PT e a prática e ouvimos a interminável lengalenga de ''consultar a sociedade''. A sociedade já foi consultada, deu a Lula 57% dos votos e escolheu, com veemência, a mudança de rumos da política de FH. Todos os candidatos, sem exceção, inclusive o do governo, José Serra, apresentaram-se como capazes de alterar os rumos da política tucana, a começar pela econômica.
Esse povo que votou no PT não entende a continuação da política de Pedro Malan/FMI e a barganha parlamentar para cortejar políticos como José Sarney e ACM, com a ilusão de que poderão manobrar essas velhas raposas da oligarquia. Se gente como Sarney, Quércia, Jader Barbalho, Delfim e ACM tivessem algum compromisso com o povo brasileiro, se quisessem mudar o Brasil, já deveriam tê-lo feito. Estão no poder há pelo menos 40 anos.
Dá pra explicar a convocação da figura sinistra de Delfim Netto, liberticida e signatário do AI-5, para integrar o Conselho Político e Social do governo?
Dá para entender a resistência a Dom Mauro Morelli no programa de combate à fome? E cabe falar em independência para o Banco Central, dar-lhe um poder político enorme e deixá-lo nas mãos de um homem que recebe R$ 200 mil por mês do banco de Boston? Aposentadoria, ok, está certo, mas quem ganha uma aposentadoria dessas veste a camisa do patrão, ah, veste!
Reforma fiscal? Reforma da Previdência? A discussão está nas ruas, tal e qual aconteceu no governo FH. Pretende-se acabar com o déficit previdenciário distribuindo miserabilidade em lugar de refundar a Previdência e estabelecer um sistema mutuarial e universal pelo qual os trabalhadores poderiam planejar a própria aposentadoria, contribuindo adequadamente até uma certa idade (60 anos?). A média seria aposentada com 70% do que ganha na ativa. (Até com uma certa redistribuição de renda: os que ganham menos se aposentariam com valores proporcionalmente mais elevados.) Como ocorre em terras civilizadas. Mas a sonegação e o roubo devem ser severamente combatidos.
Quanto à reforma tributária a única ''novidade'', até aqui, é a proposta de eternizar a CPMF, mais uma vez enganando os contribuintes, quebrando promessas e esquecendo a oposição que o PT sempre fez a esse projeto quando estava do outro lado da mesa. Todos os dias somos surpreendidos com uma medida que tem a cara do governo FH. Agora mesmo, o governo anuncia que tomará a si os projetos de reforma previdenciária e tributária encaminhados ao Congresso pelo governo anterior. Se eram bons, por que o maior especialista em obstrução parlamentar (como gosta de definir-se), José Genoíno, atravancou tanto a pauta do Congresso durante o governo FH quando essas mesmas reformas foram apresentadas? Na ocasião eram apontadas pelo PT como coisa do demo, ou pior. O que mudou?
Quem estava mentindo?

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