O SERVENTUÁRIO Independente
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MEMÓRIA

AMAURI DIAS

No reino shakespeariano da Dinamarca, ética e caráter eram mercadorias raras... JOÃO OSCAR, in JUVENTUDE VERMELHA .

1 - UM FESTIVAL DE HIPOCRISIA

PRELÚDIO

Quando estudantes, aprendemos na cadeira de Literatura ( nível do atual 2o. grau ) que o gênero dramático compreende a tragédia e a comédia. A presente narrativa, dividida em três atos, reavivou-me esta lição da memorável década de 50, cuja lembrança obriga-me a concordar com o célebre PABLO NERUDA : CONFESSO QUE VIVI ...

PRIMEIRO ATO

Em meados de 1991, ao aproximar-se o final do mandato da 1a. Diretoria eleita do Sind-Justiça, realizou-se uma Assembléia Geral Ordinária em que foram aprovadas as contas do Sindicato até o 1o. semestre daquele exercício.

Na ocasião, nenhuma objeção foi oposta à prestação de contas então apresentada à Categoria, que referendou-as sem ressalvas nem votos adversos. Presente à Assembléia, o então Delegado Regional de Friburgo absteve-se de votar e pediu cópias de todos os papéis referentes às citadas contas, no que foi atendido pela Diretoria do Sindicato.

Portanto, o aludido Delegado Sindical não só testemunhou aquela prestação de contas e sua aprovação em Assembléia, como também poderia, em qualquer tempo, denunciar qualquer irregularidade que, porventura, viesse a apurar nos papéis que lhe foram entregues.

Não obstante, ao apresentar suas contas de 1998 à Categoria no final do seu 3o. mandato à frente de nossa entidade representativa, o indigitado cidadão teve a desfaçatez de afirmar reiteradamente que tal iniciativa constituía um fato inédito na história do Sind-Justiça.

Daí conclui-se que CÉSAR SALGUEIRO e seus xifópagos têm o monopólio da virtude e da probidade ( ? ) no trato das contas e de toda administração do Sindicato...

2o. ATO

É de louvar-se também a isenção ( ? ) desse parceiro incondicional e submisso da Cúpula do Poder Judiciário, ao presidir ( ele próprio ) a Assembléia convocada para apreciação de suas próprias contas... E, mais ainda, quando - absurda e fraudulentamente - aprovou-as por contraste, numa conjuntura em que havia um franco equilíbrio de votos contrários e favoráveis, impondo-se a plena contagem dos mesmos.

Idêntica farsa ocorreu na escolha dos delegados ao último Congresso da FENAJUD, que processou-se num Conselho de Zonais ( e não em Assembléia Geral ) realizado em pleno horário de expediente forense, com a participação exclusiva de representantes de Comarcas que constituem feudos eleitorais dos carneiros do Poder e de outras figuras que gravitam em seu redor, numa pastosidade mental deplorável...

3o. ATO

Mas o auge deste festival de hipocrisia registrou-se mais recentemente, quando sofremos a perda irreparável do companheiro EDSON DE FREITAS. Soube, a propósito, que alguns xifópagos falaram até em suicídio... ( Vide a matéria seguinte desta Coluna,sob o título O BOATO SUJO ) .

Com efeito, causou-me náusea a farsa encenada pela Diretoria do Sind-Justiça, ao associar-se às homenagens prestadas ao mais combativo militante da história de nossas lutas; às homenagens que deveriam partir exclusivamente daqueles que o admiravam e até dos que dele divergiam, mas o respeitavam por sua coragem, determinação e integridade.

O próprio EDSON teria sido o primeiro a repudiar quaisquer manifestações de pesar dos poltrões que - curvando-se a pressões espúrias e transgressoras de nossa autonomia sindical - sonegaram-se a cumprir as decisões da Categoria na Assembléia que pôs termos à sua última greve; e que, agachando-se horizontalmente à Cúpula do Poder, o destituíram arbitrariamente ( junto com o valoroso companheiro CHAIM ) da Diretoria Executiva do Sind-Justiça.

EPÍLOGO

Certa vez, alguém afirmou que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Com a mesma convicção, entendo que a hipocrisia é o seu lugar-comum...

 

 

2 - O BOATO SUJO

Ante a expressão deste morto, a homenagem deve ser prestada como se fosse o cadáver da própria pátria - MAURÍCIO LACERDA, diante do corpo de JOÃO PESSOA, assassinado em 1930.

 

Causou profunda estranheza o boato, divulgado na ocasião por fontes autorizadas do Sind-Justiça ( inclusive diretores da entidade ), de que EDSON DE FREITAS teria cometido suicídio...

Perguntamos : foi um boato gratuito ou premeditado ? Quem o industriou, e por quê ?

Em qualquer hipótese, foi um boato sujo e perverso, que revela-nos - sem retoques - o retrato moral de seus autores...

Em A CONDIÇÃO HUMANA, o memorável ANDRÉ MALRAUX descreve-nos a imagem de um morto : deitado de costas, braços cruzados no peito, esticado, imóvel, com os olhos fechados, o rosto pacificado pela serenidade que a morte dá, durante um dia, a quase todos os cadáveres, como se devesse ser expressa a dignidade, mesmo que dos mais miseráveis .

Conclui-se que - nem mesmo diante de um quadro tão pungente - EDSON DE FREITAS mereceu, de figuras tão desprezíveis, o respeito devido à sua dignidade. Em suma, de uma súcia de canalhas não poderíamos esperar outra linha de conduta; especialmente por serem xifópagos de um canalha-mor que só atrevia-se a difamar o imortal EDSON pelas costas...

 

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