
Ou morre o veado ou a onça
Coluna de Dora Kramer publicada no JB de 24 02 2003
''É insustentável a opção de se combater a inflação com elevação do desemprego e arrocho do setor produtivo'' (JB-20/2/2003). Estas palavras foram ditas quarta-feira, logo depois de, pela segunda vez nos seus breves 50 dias, o novo governo ter aumentado os juros. O autor da frase foi o empresário Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Não foi a senadora Heloísa Helena nem os deputados João Batista de Araújo, o Babá, Lindberg Farias ou Luciana Genro - parlamentares que podem ter incorrido em erros que serviram para que fossem tratados por parte da imprensa como figuras exóticas, mas gente séria.
No ano passado, ao longo da campanha eleitoral os tucanos afirmavam que, como
a situação do país era delicada, seria desaconselhável
qualquer mudança na política econômica e nos seus condutores.
Um arguto cronista chegou a perguntar, fazendo graça: ''Quer dizer
que a crise é tão grave que seria uma temeridade mudar a política
econômica que nos levou a essa situação tão dramática?''
Na ocasião, críticas como esta foram encampadas pelo PT. E o
eleitorado deu a vitória a Lula num voto massivo pela mudança.
Hoje a política do ministro Antônio Palocci, da Fazenda, está deixando desconfortável até mesmo a ala moderada do PT. Dá pena ver líderes do partido, acuados, tentarem defender o indefensável ao explicar o porquê da manutenção da política macroeconômica de Fernando Henrique Cardoso. O único argumento que apresentam é um tímido pedido de mais tempo para que as mudanças sejam feitas. Enquanto isso são confrontados com as afirmações de véspera.
Ao contrário do que Palocci diz, não é verdade que esteja simplesmente pondo em prática o que foi defendido na campanha. Lula falava em não romper contratos e em responsabilidade fiscal. Nunca acenou com aumentos do superávit primário ou dos juros. Ao contrário, sempre criticou essas medidas quando postas em prática por Fernando Henrique, prometendo fazer justamente o inverso.
Ver o controle da inflação como a baliza que vai determinar todas as outras metas do governo é, na melhor das hipóteses, um equívoco grosseiro. Entregar a direção do Banco Central a representantes do sistema financeiro e criar uma blindagem dando-lhe independência na busca do controle da inflação, mediante o aumento dos juros, é abrir mão de uma política monetária integrada aos objetivos de crescimento econômico e criação de empregos. Vale lembrar que a frase ''criar empregos vai ser a minha obsessão'' foi dita por Lula inúmeras vezes na campanha.
Se a defesa da moeda não estiver integrada a um esforço para superar a recessão e retomar o crescimento, o que exige a queda dos juros, o cerne da política econômica não vai mudar. Nem agora, nem mais adiante. A meta de controle da inflação por meio da elevação dos juros (ou, na melhor das hipóteses, manutenção de patamares altos) vai determinar o resto.
Não se trata de defender uma política aventureira. Muito menos de favorecer um processo de desestabilização do governo Lula, que só traria frutos para a direita neoliberal. Mas trata-se, isso sim, de não perder a identidade, uma vez no governo. Aliás, este foi o caminho para a derrota da social-democracia na França e o rotundo fracasso de De la Rúa na Argentina. Por isso é preciso não dar razão aos tucanos quando dizem (agora respaldados pela política de Palocci) que a política que implementaram era a única possível.
Ou bem o PT se preocupa em agradar ao mercado financeiro e ao FMI, ou bem aplica o programa para o qual foi levado ao governo. É impossível acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Ser fiel ao que sempre propugnou significa apostar na saída da recessão, na retomada do crescimento, no combate ao desemprego, na distribuição de renda e na ampliação do mercado interno. Isso implica diminuir (e não aumentar) os juros e o superávit primário.
Às vezes na vida impõe-se uma escolha. Mesmo que isso desagrade à banca.
Em outras palavras: há situações em que ou o veado morre, ou a onça passa fome.

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