
O falso brilhante
Coluna do jornalista Carlos Chagas publicada na Tribuna da Imprensa em 12.04.2003
BRASÍLIA - Não vai ser fácil o governo recuperar-se. O estrago causado pelo reajuste salarial de 1% para o funcionalismo público equivale à situação do indivíduo que se sacrifica, economiza e paga os olhos da cara por um anel para dar de aniversário à mulher e, pouco depois, verifica ser o diamante vidro puro.
Governo prejudica servidor e atende FMI
Durante sete dos oito anos do consulado de Fernando Henrique, os servidores
federais, estaduais e municipais não tiveram aumento, exceção
de certas categorias privilegiadas no Legislativo e no Judiciário.
A grande massa de funcionários públicos teve seus vencimentos
congelados desde o Plano Real, perdendo 79% de seu valor para a inflação
do período. No oitavo ano, o reajuste foi de 5%. Essas e outras maldades
praticadas pelo modelo neoliberal levaram à vitória o candidato
da oposição à presidência. Suas promessas de campanha
não deixavam dúvidas de que as coisas iriam mudar, mesmo sem
ninguém esperar recomposições imediatas.
Vem a posse de Luiz Inácio da Silva e começam as decepções. Em vez de diminuir, os juros aumentaram. Em vez de ficar pelo menos equiparados à inflação, as tarifas de serviços públicos privatizados acompanharam o dólar. A gasolina foi reajustada três vezes, o gás de cozinha também.
O novo governo atendeu às imposições do FMI e aumentou as metas do superávit primário. Procedeu-se ao mais formidável corte orçamentário das últimas décadas, faltando dinheiro para tudo, menos para o pagamento dos escandalosos juros das dívidas externa e pública. Apesar dos lucros fabulosos dos bancos, ninguém pensou em taxá-los. A especulação financeira permaneceu como atividade mais rentável do que a produção industrial ou agrícola.
Quantos que protestaram diante da manutenção do modelo neoliberal foram pressionados, perseguidos e, no caso de dissidentes do PT, ameaçados de expulsão. Na hora de fixar o novo salário mínimo a equipe econômica sugeriu que se passasse de R$ 200 para R$ 234, concedendo o presidente Lula o limite de R$ 240. Nada perto do que o seu eleitorado imaginava, depois de tanto sufoco. Para culminar, o ministro do Planejamento anuncia 1% de reajuste para o funcionalismo, mais um abono de R$ 59.
Quem lucrou com FHC, lucra mais com Lula
Nada mais natural, assim, do que ganhar as ruas a frustração
do eleitorado. Os partidos de oposição, tão ávidos
de aplaudir a perpetuação do neoliberalismo, apresentam aquele
sorriso maroto de quem nada tem a ver com os reclamos populares. Os da situação,
perplexos, cada vez mais ampliam críticas ao governo do companheiro.
Poucos acreditam que tudo se constitua num remédio amargo. As centrais
sindicais estrilam, em especial as que se engajaram na candidatura do PT.
No próprio Partido dos Trabalhadores, a maioria prefere calar, mas não anda menos perplexa do que o grupo insurrecto. O que teria acontecido para o diamante virar vidro em tão pequeno espaço de tempo? Fica difícil supor que tudo não passe de uma tática emergencial, destinada a desfazer apreensões e a sinalizar para o mundo que a política econômica vai mudar.
Cada dia que passa reforça as estruturas dos mesmos de sempre, aqueles que lucraram com Fernando Henrique e já estão lucrando com Lula. Mesmo se o presidente quiser, e quando quiser, enfrentará obstáculos quase intransponíveis para voltar atrás. Voltando, por hipótese remota, conseguirá fugir da sombra do descrédito? E, não voltando, deixará de seguir atrás da vaca, para o brejo?
O Brasil tem visto de tudo, desde que retornou à democracia. José Sarney no lugar de Tancredo Neves. Fernando Collor, que parecia um jovem reformador, obrigado a renunciar por acusações de corrupção. Itamar Franco, temperamental, responsável pela eleição de Fernando Henrique. E o sociólogo de tendências esquerdistas transformado em arauto dos especuladores e algoz da soberania nacional.
Por tudo isso o Brasil real carregou todas as suas fichas no candidato que representava a antítese de tanta desfaçatez. Alguém que há doze anos vinha tentando chegar ao governo precisamente para mudar o modelo. Que prometia colocar um fim no desemprego, na indigência, na fome e na miséria. Pois é. Se as coisas mudaram, está sendo para pior.
Virou tudo de cabeça para baixo, a ponto de o vice-presidente da República, de formação liberal, haver-se tornado o mais novo contestador da política econômica. Tempo ainda há, mas o círculo vai-se fechando perigosamente para revelar um falso anel de brilhantes. As expectativas e as esperanças dão lugar à frustração e, depois, à indignação. Depois ou agora?

Página com som