O SERVENTUÁRIO Independente
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O remédio é resistir

Coluna de Carlos Chagas publicada na Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Nem Kafka imaginaria roteiro assim tão singular. Deputados e senadores do PT estão sendo condenados à execração pública, à expulsão e ao pelourinho por estarem defendendo as idéias que levaram Luiz Inácio da Silva à vitória, em outubro. O atual presidente da República foi eleito em nome da indignação nacional diante do modelo econômico que por oito anos nos assolou.

Não faz muito que a multiplicação da dívida externa, da dívida pública, do desemprego e da indigência coincidiram com a alienação do patrimônio público, a quebra de monopólios estatais estratégicos e a supressão de direitos trabalhistas estabelecidos desde as décadas de trinta e quarenta.

A frustração sufocou a esperança


O PT lutou além de suas forças e conseguiu, pelo menos, impedir a adoção de uma série de reformas que serviriam para dar o golpe de misericórdia na soberania nacional. Reuniram-se as derradeiras forças da nacionalidade para evitar que o déficit da Previdência Social fosse pago pelos aposentados e pensionistas. Não conseguiram, os neoliberais, aprovar a reforma tributária que levaria os mais pobres a pagar impostos em nome da necessidade de os mais ricos pagarem menos. Obstou-se o funeral das derradeiras prerrogativas constantes da Consolidação das Leis do Trabalho em nome de uma obscena livre negociação entre patrões e empregados.

A eleição de Lula marcaria o início da virada. Seria o sinal para a mudança de políticas e modelos a nós impostos pela globalização distorcida e pelo neoliberalismo resultante do chamado Consenso de Washington, estratégia dos poderosos para subjugar os mais fracos, retirando-lhes não apenas as riquezas restantes, mas a possibilidade de se afirmarem como nações independentes pelas próximas décadas.

No mundo inteiro, mas, em especial, dentro de nossas fronteiras, celebrou-se por fugazes semanas a vitória das forças populares diante das elites. Tempos novos emergiriam da ascensão ao poder do Partido dos Trabalhadores, capaz de resgatar tanta indignidade e tanta injustiça praticadas contra as maiorias.

Hoje, passados cinco meses da chegada de Lula ao poder, acontece o quê? A constatação de que a esperança venceu o medo, mas, depois, a frustração sufocou a esperança e rapidamente se transforma em indignação maior do que a anterior.

Brasil está diferente, mas para pior


Mais do que não entender a punição dos que se mantiveram fiéis aos postulados da libertação nacional, confundimo-nos todos diante do retrocesso que vem marcando o governo do PT.

A punição dos que denunciam a nudez do rei torna-se tão incompreensível como a preservação dos privilégios das elites de sempre. Na reforma tributária enviada ao Congresso, não se vê uma só iniciativa capaz de taxar um pouco mais os estratosféricos lucros dos bancos, ou de reduzir um mínimo que seja os privilégios dos especuladores.

Para enfrentar o déficit na Previdência Social, cuida-se de taxar os aposentados. Em vez de se criar condições para a retomada da produção, mantém-se sobre a atividade produtiva as maiores taxas de juros do planeta. Enquanto isso, nenhum dos programas de assistência social deixou o plano das intenções.

O programa Fome Zero, por enquanto, alimenta apenas a propaganda que inunda microfones e telinhas. "A gente sente, o Brasil está diferente", mas para pior. Os salários continuam perdendo seu poder aquisitivo e nem se fala de reajustes, exceção para o ridículo percentual de 1% para os vencimentos do funcionalismo público. Para o trabalhador da empresa privada, menos ainda.

Grave, em todo o drama, é verificar que tudo acontece sob o chicote daqueles que um dia se propuseram a extinguir a nova escravatura. Tiradentes transformado em Joaquim Silvério dos Reis, Princesa Isabel às avessas, Caxias sem espada - importa menos a imagem por eles transmitida cinco meses depois de assumirem o governo.

Quem quiser que continue, mas não dá mais para calar diante da encenação dessa pantomima. Navegar será preciso, outra vez. E resistir, mais do que nunca...

 

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