O SERVENTUÁRIO Independente
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A indignação que começa a se espalhar pelo País

Coluna de Pedro Porfírio publicada na Tribuna da Imprensa de 02 de Julho de 2003


"Dá nojo. A reação do País pode demorar. Quando vier, porém, virá para arrasar os que traíram o Brasil para gozar do poder."
Roberto Mangabeira Unger, professor

 

Há mais do que sussurros, há clamores de indignação e amargura. Como pode estar acontecendo isso tudo? A perfídia corta os corações e mentes que se achavam no fruir de um sonho acalentado por eras. Para muitos, nada é real.

Será? A cada dia que passa, vai-se desbotando o papel glacê que envolvia o discurso da esperança cálida. Nada escapa ao ritual das decepções urdidas. Seja na dança servil do culto à dependência dos donos do mundo, seja na maldição implacável da dignidade. Quem ousa relembrar os ditos idos vai para o cadafalso dos proscritos. Com fogueira e ofensas cínicas.

O mais assustador é a idolatria da traição. Aquele que não trair não tem serventia. Descarta-se. Pensavam uns que só os servidores públicos seriam massacrados por terem acreditado cegamente na redenção prometida. Só eles pagariam pelo crédito incômodo granjeado pela corrida maciça às urnas. Nada disso. Todos os que desafiaram o medo com a esperança etérea viraram estorvos da metamorfose ímpia.

Mais um desencanto


O professor Roberto Mangabeira Unger é um inquieto que joga suas cartas onde projeta suas fantasias. Formado pelas melhores universidades da metrópole, escolheu Brizola na década de 80. Desencantou-se e correu para os braços de Ciro Gomes, de quem era todo ouvido. Antes do combate final, viu que caíra numa esparrela. Escreveu do próprio punho uma proposta insólita: concentremos as forças no Lula, que ele será o nosso amanhã. Ficou mal com os parceiros, mas agüentou firme. Agora, está num mato sem cachorro.

"A radicalização de herança denunciada como maldita pelos que a radicalizam;

o adiamento indefinido de qualquer esforço para retomar e para reconstruir o desenvolvimento brasileiro;

a destruição dos instrumentos de uma política desenvolvimentista, sejam carreiras públicas, sejam organizações públicas como a Embrapa;

a delegação da política econômica (e agora de parte das negociações da Alca) a quadros de terceira ordem intelectual, embasbacados diante das lições de seus professores americanos;

a degeneração da reforma previdenciária em fiscalismo desesperado e truculento;

o abandono de qualquer tentativa de simplificar e de reorientar o regime tributário;

a redução da política social a medidas compensatórias cujo desacerto é ocultado por sua inoperância;

a ausência de iniciativas destinadas a desconcentrar o acesso às oportunidades de trabalho, de crédito e de ensino;

o fatalismo com que se encaram o aviltamento do salário e o aumento do desemprego como se fossem o preço a pagar pelo controle da inflação;

o apelo à necessidade de manter a confiança financeira como justificativa genérica para esses males; o aproveitamento da fragilidade dos partidos para fragilizá-los ainda mais, e a desfaçatez dos acertos que se começam a fazer, em nome da hegemonia política, com os grandes empresários e com a grande mídia - tudo isso pressagia duplo desastre para o País.

Desastre de desmoralização da democracia: foi para interromper tudo isso que o País votou em outubro de 2002. E desastre de desperdício de oportunidade histórica: agora temos de começar tudo de novo para forjar o instrumento político de alternativa nacional, trabalhista e produtivista".

E mais:
"No tema mais urgente - a Alca -, a visita ao presidente aos Estados Unidos mostra que o esvaziamento estratégico das negociações foi substituído por fórmulas e por procedimentos que nos devolveram ao rumo da rendição. Tudo contrabalançado pela busca de subegemonia na América do Sul, por homenagens a tiranetes latino-americanos do agrado do PT e pelas reclamações de sempre contra as injustiças da globalização.

Washington e Wall Street não se impressionam com esses gestos; comemoram, embora como fato menor e previsível, a prostração do governo brasileiro, assumida pelo próprio Lula na metáfora reveladora e humilhante do boxeador nocauteado. Enquanto não tiver projeto interno, o Brasil não terá política exterior. O objetivo de ajudar a mudar a situação mundial será substituído pela ambição de figurar como potência média nos foros internacionais. Figurar sem dar aborrecimento.

Figurar para não ser. Salvam-se o compromisso de reerguer o Mercosul e a promessa de aproximação aos outros países continentais em desenvolvimento. A base dessa abdicação interna e externa é a falta de fibra e de clareza: a disposição de assumir o papel do bom operário que cuida dos pobres sem causar problema aos patrões e é, por causa disso, bem vista pelos graúdos do mundo. É também a determinação (até nisso míope) de manter a hegemonia política a qualquer preço, mesmo que seja a preço de infidelidade ao povo brasileiro".

O libelo enfezado do professor Mangabeira é uma manifestação explícita de um sentimento que tende a generalizar-se, diante do mais rocambolesco estelionato político de que se tem notícia em toda a história do Brasil.

Quando ele escreveu seu artigo apontando como falsários os novos dirigentes do País, ainda não havia sabido da última: o governo federal está disposto a apoiar a proposta de governadores para desobrigar os estados de gastos com a educação e a saúde.

Isso mesmo: pelo acordo costurado na última reunião do dia 30 como parte do projeto de detonar o serviço público, ficou acordado que a "reforma tributária" ajudará a esvaziar de uma vez o ensino e o atendimento prestados gratuitamente ao povo. Os governadores ficarão de mãos livres para manipular os orçamentos, derrubando uma das conquistas mais importantes dos últimos anos.

Quando ele escreveu seu desabafo, o governo ainda não havia assumido publicamente o plano de envolvimento das entidades sindicais com a criação de fundos de pensões privados próprios, forma nada sutil para explicar a pusilanimidade da CUT e similares.

O apoio para que o movimento sindical se transforme num grande negócio, como nos Estados Unidos, explica os discursos em que Lula pede a mudança do comportamento dos seus ex-colegas. Pelas mãos do ministro da Previdência, estão sendo criados os balcões que alimentarão os novos pelegos, os quais assim abrem mão do "corporativismo" para cuidarem de suas "corporações".

Uma reles caricatura


Todos os movimentos do novo poder não passam de reles caricatura do antigo. Tanto que já estão se entendendo a partir do referencial que os interliga - a santíssima metrópole. Mangabeira acha que o governo petista se aliou de pés e mãos atadas a Washington porque pretende fazer do Brasil uma "potência média". Errou. A sabujice é simplória demais. Fala-se isso e aquilo só para encobrir a entrega do ouro ao bandido, sem a menor cerimônia.

Irritam, mais do que a traição, as tentativas primárias de dourar a pílula. Ninguém vai mais no embuste. Os sem-terra, que serviram de combustível para a subida do PT, não acreditam mais na conversa fiada do "Fome Zero". Eles são do mato, não são malandros. Lula disse no Mato Grosso, há uns três meses, que preferia ajudar a quem já estava assentado, já tinha seu chão. Pegou mal. E os que estão no sol das estradas?

A mentira tem pernas curtas, já dizia minha avó. Agora, começam a aparecer pesquisas admitindo que o desencanto se alastra. Os números ainda não representam o sentimento generalizado. São maquiados para não chocar. Um governo que prometeu 10 milhões de empregos e eleva os juros para desempregar ainda mais não é nenhum pouco digno do respeito dos cidadãos.

Quando a senadora Heloísa Helena perde a doçura é porque a coisa passou dos limites. Viu o que ela disse no capítulo de terça-feira? "Só não digo que isso é palhaçada em respeito aos profissionais do circo". A pantomima da bancada do PT beira o ridículo e deixa sem graça seus próceres, como o senador Suplicy. "Eu não me sinto à vontade aqui" - desabafou. Até ser levada à fogueira, a senadora mais popular do PT está de castigo. Não pode participar das reuniões dos seus pares e nem falar pelo partido.

Que País é esse? Vale perguntar de novo. Nunca se viu tanta pasmaceira. Diga alguma coisa que tenha sido feita de diferente nesses seis meses de pesadelo. Diga.

Não precisa ser um Mangabeira Unger para vaticinar a revolta. As manifestações do pensamento sempre se adiantam. Só não grita quem trocou a consciência crítica pelas delícias do palácio e adjacências.

Depois, será a plebe, não demora. A greve dos servidores públicos em todo o País já na próxima semana vai repercutir, porque afetará a toda a população. Será um ensaio do País que eles querem, o do Estado mínimo, com o povo entregue à própria sorte, ou melhor, às ONGs da solidariedade profissionalizada, do milionário "terceiro setor".


É uma pena, mas não há porque chorar o leite derramado.

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