
Entre Diógenes e Alexandre
Coluna do Prof. Carlos Chagas na Tribuna da Imprensa em 01/09/2003
BRASÍLIA - A história é velha, mas merece ser recontada.
Depois de vencer os gregos em Queronéia, Alexandre preparou-se para
conquistar o mundo, ou, pelo menos, o mundo à época conhecido.
Em Atenas, cortejado e todo-poderoso, quis conhecer Diógenes, recomendado
como o mais sábio dos gregos.
O filósofo havia sido rico e prepotente, mas, por decisão própria, doara todas as suas posses e morava num barril, colocado diante cais do Pireu. Alexandre aproximou-se, extasiado com tanto desprendimento, conhecedor profundo das lições do velho. Defrontando-o sentado no chão, na "porta" do barril, vestido de andrajos, ofereceu-lhe tudo. Estava disposto a lhe dar palácios, tesouros, honrarias, exércitos e tudo o mais que pedisse.
Diógenes, enfadado, respondeu apenas: "Majestade, não me tires aquilo que não me podes dar...". Alexandre entendeu, retirando-se em silêncio para nunca mais procurar Diógenes, que se referia à luz do sol, encoberta pela sombra do conquistador.
Povo perdeu esperança no governo Lula
Recorda-se o episódio como forma não de acutilar, mas de sensibilizar
Lula. Quem o vê discursando diante de multidões tem a impressão
de estar diante de um rei que tudo pode e tudo promete. Mudanças econômicas,
melhorias sociais, emprego para todos, obras de infra-estrutura, comida para
os famintos, quanta coisa a mais?
O povo raramente fala, de um modo geral só nas eleições ou em situações bissextas de convulsões, o que não é o caso, porque as eleições já passaram e as convulsões ainda não chegaram. Pudesse pronunciar-se diante dos discursos de Lula e talvez o povo repetisse Diógenes, pedindo ao presidente para não tirar-lhe aquilo que não lhe pode mais dar: a esperança.
Porque, pesquisas encomendadas e pagas à parte, propaganda proselitista de um lado, marqueteiros e até euforia e empáfia de outro, a verdade é que as massas perderam a esperança no governo de Lula. O governo dos trabalhadores, até agora, só fez tirar a luz do sol das massas. Pelo menos as massas responsáveis por sua eleição, que ocuparam as ruas entre gritos de indignação diante da cruel realidade dos oito anos anteriores. Multiplicação da indigência, desemprego em profusão, fome, salários indignos, recessão econômica, estagnação produtiva - essa herança maldita mobilizou a nação em torno das promessas de mudança feitas pelo candidato do PT.
Não adianta, agora, tentar dourar a pílula ou mascarar a crônica do período pré-eleitoral com afirmações de que Lula já era outro, porque convencido da impossibilidade de mudanças ou porque prometera manter as benesses da minoria.
Presidente promete mundos e fundos
Se falou assim, poucos entenderam ou acreditaram. Todos os que votaram nele
confiavam nas promessas de mudança. É mentira essa conversa
de que o presidente só foi eleito por se compor antes com as elites.
Os votos fluíram porque o candidato exprimia o oposto. Chegou ao Palácio
do Planalto montado na indignação popular, ainda que nem por
isso estivesse disposto a virar o País de cabeça para baixo.
Nosso Alexandre continua prometendo mundos e fundos, mas permanece defronte a Diógenes, interrompendo a luz do sol, a esperança dos eleitores. Afinal, oito meses transcorreram e o modelo econômico é o mesmo. No plano social, pouca coisa funciona, seja em educação, seja em saúde públicas. O desemprego cresceu muito mais. A equipe econômica chegou ao exagero de cortar recursos orçamentários destinados a obras públicas.
O programa Fome-Zero continua nas telinhas, fornecendo recursos para os veículos de comunicação mas sem chegar à panela dos famintos. A indústria nacional regride e fica cada dia mais impossibilitada de competir com a estrangeira.
Da agricultura, fala-se muito, mas poucos atentam para o fato de haver diminuído a área cultivada. Ou de as exportações de soja beneficiarem os fazendeiros, em momento algum servindo o povo, que não come soja e, se consultado, recomendaria plantar milho, arroz e feijão, produtos que não raro importamos.
Lula promete, esforça-se, mas a esperança esvai-se como o sol que Alexandre tirou de Diógenes. Devemos ser otimistas. A História registra que o filósofo, mesmo sem palácios, continuou por muitos anos dando lições aos gregos. Alexandre conquistou o mundo, deixando-se contagiar pelos vícios das elites que conquistou, até deixar seu império desfazer-se.
Fracassaram os generais que o dividiram. Que se cuidem José Dirceu, José Genoíno, Aloysio Mercadante, Antônio Palocci, Luiz Dulci, João Paulo Cunha, Professor Luizinho, Tarso Genro e Olívio Dutra. São nove, como eram nove os generais que destruíram o império de Alexandre...

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