O SERVENTUÁRIO Independente
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Alguns petistas ainda crêem em discos voadores, mas o PT não é um ET

PRIMEIRA LEITURA


Mais do que governar, fazer oposição também é uma questão de competência. Como bem sabem os petistas de um e de outro lado do balcão.


Há várias ilusões políticas em curso no país, que, diga-se, são inéditas e devem constituir matéria de reflexão e pesquisa para os historiadores e os especialistas em política — ao menos aqueles que não estão embalados pelas mesmas ilusões.

Fiquemos com duas das mais influentes. Quer o petismo renitente, formado por aqueles que integram desde sempre a massa de 30% de eleitorado do PT, que todas as opções até agora feitas pelo governo Lula derivam das circunstâncias e do patrimônio que ele herdou de FHC, que seria desastroso. A estes, pouco importam os fatos. A simples menção de que foi o fator Lula (que pertencia ao ex-partido da ruptura) que levou a economia à situação de descontrole agudo é tida por ofensa.

Estes 30% não querem saber de nada. Lula é a verdade e a vida. Se o país o tiver no comando, o futuro glorioso está garantido. A fatia radicalizada dessa faixa integra a burocracia do poder. Algo parecido com uma ideologia (sem ser, porque mais primitivo) a leva a justificar qualquer procedimento. Nenhuma dessas pessoas seria capaz de explicar o que a suposta herança maldita de FHC tem a ver com a reforma da Previdência (antes repudiada, agora defendida), com a recém-adquirida ambigüidade de Lula sobre os transgênicos ou com a sujeição do país ao FMI. Havia o mal original e o bem original. Assim era e assim será. Qualquer ponderação ou argumentação, na interlocução com tal grupo, já nasce vã.

Esse grupo opera com o mesmo mecanismo mental dos místicos ou dos partidários de convicções exóticas. Tanto a prova quanto a ausência de prova servem para fundamentar uma convicção. Só para exemplificar: se a Nasa nega a ausência de discos voadores, é porque, claro!, a Nasa sabe que existem discos voadores...

O segundo grupo, também vítima de uma ilusão, supõe que tudo o que vemos é só uma espécie de curto verão da anarquia. Querem estes que as contradições do próprio petismo e a sua suposta incompetência para governar se encarregarão de apear o partido do poder. Não sem certa jactância, crêem-se partidários de uma racionalidade original, que constituiria a natureza profunda do poder, que há de cobrar mais adiante a sua fatura.

Um e outro grupo, em verdade, ignoram o que há de novidade no petismo palaciano (que é coisa diferente do PT como partido de oposição): existe um claro projeto de poder, que nem há de realizar a redenção sonhada por aqueles 30% nem há de ameaçar o país com o abismo, como supõe boa parte dos oposicionistas.

Natureza do aparelhamento

É por isso que é importante que se caracterize com precisão a forma como o PT está organizando o seu governo. Acusar o petismo de “fisiologia”, nos moldes ao menos como tal prática ficou conhecida no país, é uma tolice reducionista. Não raro, a fisiologia indica mais ausência de projeto político do que a existência dele. Fazem-se maiorias, quase sempre ad hoc, que podem ser desfeitas mais adiante, que oscilam ao sabor de interesses regionais. Havia fisiologia, entendida como a distribuição de cargos e benesses para formar maiorias eventuais, no governo FHC? Sim. E até por isso o ex-presidente não conseguiu aprovar as suas reformas.

Há fisiologia no governo Lula? Sim, especialmente na distribuição de cargos aos partidos aliados. No que respeita ao petismo, está em curso é outra coisa. O “aparelhamento” tem outra natureza do toma-lá-dá-cá franciscano. Sua coerência interna não é garantida pelo benefício, digamos, em espécie, mas pelo rigor que se pretende ideológico e programático das medidas adotadas. Ao antepor critérios de militância política e de ligação orgânica com as causas para fazer a indicação ao cargo público, o governo garante uma máquina estatal formada por prosélitos, que, é óbvio, dará prioridade à militância se necessário, a despeito da eficiência do serviço público. É por isso, por exemplo, que o Fome Zero ainda não fez chegar comida aos com-pouca-comida, mas já se dedica à filiação de miseráveis ao partido. Isso não é fisiologia, não. É algo mais sério: é a captura das estruturas do Estado a serviço de uma causa política.

A medida que se garante essa coesão da máquina estatal, que passa a ser máquina partidária — de sorte que até os recursos desta têm uma origem “legal naquela —, o critério da eficiência do serviço público ou mesmo do cumprimento da promessa do governante passa a ter pouca ou nenhuma importância. Ora vejam: o Fome Zero é o maior fracasso da história eleitoral do ocidente, e no entanto, o programa, criticado pelos próprios petistas, é tido como exemplar pela maioria da população. Compõem tal maioria, é claro, os 30% do eleitorado petista fixo, mas também outro tanto disso que foi ou capturado pela propaganda oficial ou que está naquela zona cinzenta dos “sem-tudo” aos quais o PT e Lula continuam a falar com eficiência.

O eleitorado cativo há de acreditar sempre na redenção. Só um cataclismo, um megacaso de corrupção envolvendo algum figurão do petismo, poderia pôr em xeque essa adesão. A estes pouco importa a caracterização sobre como o PT vai organizando o seu eixo de poder, quais forças compõem a sua base social, quem ganha e quem perde na batalha distributiva. Já o outro grupo, o que forma na fileira da oposição, que não aderiu ao petismo, mas espera que o partido cometa seus erros para, então, fazer a crítica, estes são vítimas, digamos, da própria acomodação.

O chefe da Casa Civil, José Dirceu, mesmo pouco dado a manifestações públicas de bom humor, deve rir intimamente a cada vez que lê no jornal um tucano a dizer que está esperando passar as reformas para fazer oposição; ou que o partido jamais votará “contra o Brasil”. Como se o voto “em favor do Brasil” estivesse escrito nas tábuas da lei de Moisés. Não estão. Até porque — e isto, essencialmente, essa turma não entendeu — o PT tem um projeto político, que se traduz no aparelhamento, na hipertrofia do Executivo, na pretendida mega-Radiobras, mas não tem projeto econômico. “Ah, eis a fragilidade”, poder-se-ia dizer...

Por que não estaria aí também, desde que garantido projeto político, a força do governo? Bem pensado, não foi a falta de um projeto que levou FHC a lona, mas a existência dele. Foi a “coerência” de Malan que evidenciou as fragilidades de FHC; foi, em sua, a sua “ideologia”. Com Lula, qualquer coisa pode ser sacada a qualquer momento em defesa de qualquer tese. Os 30% aplaudirão sempre. E o trabalho é mobilizar a máquina do Estado e a máquina de propaganda para constituir a necessária maioria. Hoje, por exemplo, não se deve falar alto em política industrial no governo. Mas nada indica que não se possa falar amanhã.

Entranhado o partido na máquina estatal, garantidas as boas relações do poder com o aparelho midiático, a tarefa do PT, na economia, passa a ser a administração de uma espécie de presente eterno. Os “inimigos” da hora vão sendo escolhidos na medida exata da necessidade. Isso quer dizer que não há chance de oposição democrática ao petismo triunfante? Ora, claro que há. Desde que se tenha claro 1) o que se quer; 2) a nova configuração do poder em curso. Até que tucanos, para ficar na esfera dos exemplos, ocupem a tribuna da Câmara para desqualificar o PT e encaminhar votações em favor do governo, não se chegará muito longe...

Mais do que governar, fazer oposição também é uma questão de competência. Como bem sabem os petistas de um e de outro lado do balcão.

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