O SERVENTUÁRIO Independente
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BERZOINI, O PT E OS VELHINHOS

Página com som

O PT vive um drama fáustico: entregou, definitivamente, a alma ao diabo. Já não sabe quem ou o que é. Muita gente, e com razão, sempre duvidou de que o partido tivesse programa de governo ou soubesse como responder ao desafio de administrar o país. Essa gente estava certa. Tanto não sabia que, ao chegar lá, foi buscar nas gavetas de FHC uma agenda superada para enfrentar desafios novos: mimetiza-a descaradamente. Recém-convertido ao realismo, executa-a ainda com mais dureza do que o outro.

O Planalto tem razão, por exemplo, quando afirma que nunca houve um acordo com o FMI como o que vai ser assinado. É verdade: nunca o Brasil prometeu um superávit primário tão alto, por exemplo. O Fundo tem mais é de aplaudir, como fez aquela simpática senhora, Anne Krueger, com suas feições de esfinge sem segredos... Até aí, vá lá, aplauda-se a coragem de dar um truque no eleitorado em cena aberta. Até porque, por enquanto, a maioria do distinto público diz que tudo vai bem. O que é do gosto regala a vida, diz o clichê. Mas o caso dos velhinhos foi demais. Aí, o diabo realmente exigiu do pobre PT uma espécie de superávit de descaramento.

Vamos emprestar alguma cor humana ao episódio. O que terá passado pela cabeça de Ricardo Berzoini? Como é que um ex-sindicalista, talhado no mundo da reivindicação e da organização política, que se fez parlamentar aprendendo a explorar o sofrimento dos oprimidos, convertendo-o em votos; que se fez figurão da República e um dos homens mais poderosos do país vocalizando causas sociais, como é que esse senhor concorda que sejam os velhinhos a provar que estão vivos, e não o INSS a provar que há fraudes?

Que novo círculo do inferno era aquele que o ministro da Previdência pôs nas ruas, com procissão de idosos miseráveis a esmolar alguns tostões do Estado, como se estivessem roubando do governo a sua sobrevida, a sua idade excessiva; como se, impertinentes, insistissem em contrariar as estatísticas, provocando um rombo nas contas que a cúpula petista pretende exibir redondinhas para a Esfinge? O PT se perdeu. Lula se perdeu.

Perdidos ambos nos marcos de economia política sempre estiveram. A quantidade de bobagens ditas, inclusive na campanha eleitoral, requereu mesmo aquela pletora de cadernos, publicados como se programa fossem. Mas o PT mantinha ainda a aura de partido preocupado com os oprimidos... Acabou! A legenda é um rascunho de si mesma. Como organismo vivo, vai apodrecendo, cedendo ao cinismo, concedendo com as “verdades”, sempre despidas de dúvidas, do fiscalismo, distanciando-se mesmo até de certa cultura humanista que lhe serviu de caldo de cultura lá na pré-história da moderna democracia brasileira. É um espetáculo deprimente!

Convenhamos! Berzoini até pode permanecer no cargo. Mas com que moral? O melhor que faria era se demitir, voltar à sua carreira política, ao mundo sindical, aboletar-se num dos fundos de pensão, a fonte do poder dessa nova classe de burgueses sem capital em que o PT se vem transformando. Qualquer que seja o ângulo pelo qual se lê a coisa toda, o ridículo e a crueldade da decisão sobressaem. Ora, perto dos buracos do INSS e das múltiplas fraudes de que o organismo é vítima, o dinheiro dos velhinhos é o de menos. Não que irregularidades, se houver, não devessem ser combatidas. Mas até porque se trata de uma decisão que envolve uma parcela especialmente frágil da população, deveria se tomar especial cuidado. Nem se negue aqui que Berzoini quisesse mesmo moralizar o sistema. Ao agir como agiu, a moralização foi para o espaço, e o que se evidencia é nada além de tara fiscalista. Por quê? Porque se decide em favor do caixa, pouco importam as conseqüências sociais, as vítimas das decisões, os efeitos que a medida possa ter na vida dos brasileiros.

Sabem por que isso acontece assim, com essa desfaçatez? Porque o governo está mal-acostumado, certo de que tem a mídia no bolso — o que é verdade na maioria dos casos — e de que nenhum mal pode lhe advir, não importa o que faça. Afinal, a maioria dos leitores deve se lembrar: Berzoini é o ministro que, numa entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, empenhou sua palavra de ministro de Estado ao afirmar que, dada a proposta original da Reforma da Previdência (antes das emendas), os servidores poderiam ganhar até mais do que ganham com as regras ainda vigentes.

Vários jornalistas presentes objetaram. Disseram que não era possível. O ministro insistiu. Acusou-os de estarem mal informados. Pois bem, feitos os cálculos, segundo os dados do próprio Ministério da Previdência, constatou-se que o ministro faltara com a verdade em sua afirmação. Entendam: um ministro de Estado vai a um programa de TV e, para defender uma proposta de reforma, é capaz de desautorizar a matemática. Restou provado que aquela aritmética era uma farsa. A questão foi solenemente ignorada pela maioria da mídia. Afinal, gente, tratava-se apenas de um ministro de Estado a asseverar uma coisa que não era verdade. Berzoini, claro, não é um mentiroso. Mas o conteúdo de sua afirmação continha uma mentira.

O PT perdeu-se. Seu senso crítico vai desaparecendo. Mesmo na relação do partido com o jornalismo, que poderia ser um dos radares e dos sensores para lembrar-lhe limites, o ambiente que se respira, na maioria dos casos, é o da militância, da coincidência de agenda, do alinhamento automático com as palavras de ordem da legenda. Às vezes, a vocalização dos interesses do politburo petista nem consciente é. Pegue-se, ainda uma vez, a facilidade com que a mídia comprou a suposta divergência entre Lula e Palocci no caso do acordo com o FMI. Se Lula tivesse redigido certas manchetes, estas não teriam saído mais ao gosto do Planalto.

Ora, o que se dá em casos como esse dos velhinhos? Simples. O PT já experimenta, ainda de maneira muito incipiente, o ambiente característico de partidos totalitários em regimes discricionários. Todo debate, toda demanda, toda contenda social passam a ser mera vocalização de grupos de pressão dentro da nave-mãe. É como se o “o outro” da política desaparecesse e só restasse o “eu-mesmo” — sempre conflagrado, é verdade, mas, até por isso, parece dar conta de toda a realidade política.

Entendam: velhinhos de 90 anos não são nem base nem alvo da militância petista. Para que pudessem estar na ordem de prioridades do partido, do governo, do Estado, forçoso seria que essas instâncias de decisão estivessem apegadas, digamos, a um humanismo genérico, acima do arranca-rabo de classes que tem marcado o discurso do PT, embora o partido já tenha escolhido o seu lado. E é de se perguntar: qual é, afinal, o lado do PT?

que Berzoini ignorou solenemente
Aliás, torturar idosos parece ser o prazer do sádico Berzoini e do PT ! Esta é parte da fila para requerer a revisão de proventos, na porta da Justiça Federal no Rio de Janeiro, em 18/11/2003 .
colocando os velhinhos às portas do inferno.
Lula sancionou o Estatuto do Idoso ( e o cartaz já avisa o que ele pretende )