
O ano do vampiro
Carlos Chagas
BRASÍLIA - Tem muita gente nas bancadas
do PT e dos demais partidos da base parlamentar do governo torcendo para o
ano acabar o mais depressa possível. Aqui, fora do Congresso, há
os que gostariam de um decreto, uma medida provisória ou um projeto
de lei estabelecendo já estarmos em 2004. Se ainda há pouco
o governo decretou o horário de verão, dispondo que a meia-noite
passou a ser uma hora da madrugada, que tal um pouco mais de audácia?
Bastaria publicar no "Diário Oficial" que o ano terminou a 31 de outubro e já estamos em 8 de janeiro. Mesmo que criassem o "janeiro I", o "janeiro II" e o "janeiro III", este o verdadeiro, quem sabe uma espécie de refrigério não tomasse conta do País? Uma lufada de otimismo, fazendo voltar a esperança que venceu o medo, mas está sendo vencida pela frustração?
O ano começou Lula e
termina FHC puro
Porque de ano mais celerado, mais cruel e mais deletério não
temos notícia há décadas. Estivéssemos na China,
onde os anos ganham nomes de bichos e 2003 estaria inscrito na crônica
como o Ano da Hiena. Quem sabe o Ano do Pato? Depende de que lado estivermos
nesse jardim zoológico em que se transformou o Brasil. A hiena, no
caso, sendo o poder público. O pato, a sociedade.
O ano começou sob a égide das mais amplas expectativas. Tudo ia mudar. Dez milhões de empregos começando gradativamente a ser criados; salários reajustados depois de comprimidos em seu poder aquisitivo; juros das dívidas externa renegociados e dívida pública alongada em seu perfil; investimentos públicos imediatos em educação, saúde, recuperação de estradas e obras de infra-estrutura; programas de habitação, alimentação e transporte geridos para os necessitados; ampliação dos direitos trabalhistas e sociais; senão diminuição, ao menos estabilização de impostos e quanta coisa a mais, prometida durante a campanha eleitoral de 2002?
A posse foi uma festa. Ninguém esquecerá Lula transitando em carro aberto pelos extensos gramados da Esplanada dos Ministérios, aplaudido, abraçado, agarrado pela massa em delírio. Pois é. Os meses passaram, ninguém nega os esforços do presidente, suas viagens e pronunciamentos saídos do fundo do coração, do recôndito da alma do torneiro que chegou ao mais alto patamar do poder prometendo mudar.
Nada mudou, ou, se mudou, foi para pior. Sob o argumento de que era preciso conquistar a confiança do sistema financeiro internacional, reduzir os índices do risco-Brasil, restabelecer o fluxo de investimentos externos, impedir o retorno da inflação e evitar a alta do dólar, abriu-se o saco de maldades sobre os ombros de todos nós.
Eletropaulo teve perdoado U$
600 milhões
Os juros foram aumentados. Estabeleceram-se novas metas para o superávit
primário, até superiores às exigências do Fundo
Monetário Internacional, mas apenas para remeter ao exterior. Contingenciaram,
ou melhor, surrupiaram verbas de um orçamento herdado do governo anterior,
inviabilizando ainda mais ações sociais de toda espécie.
Permitiu-se o aumento abusivo das tarifas públicas. Deu-se ao salário mínimo um ridículo reajuste para R$ 240 e aos funcionários públicos grotesco reajuste de 1%. Aos assalariados das empresas privadas, nem isso, exceção a poucas categorias.
Impôs-se ao Congresso reforma previdenciária que tornará mais difícil a aposentadoria de pequenos, com desconto para os inativos do serviço público. E uma reforma tributária que aumentará a monumental carga suportada pelas empresas nacionais e pelo cidadão comum. Às multinacionais deram-se favores excepcionais, a começar pelo perdão de US$ 600 milhões da dívida daquela que havia comprado a Eletropaulo com dinheiro público. Chegaram a proibir que se fume em locais públicos.
Tem muito mais coisa, mas, convenhamos, só com essas acima referidas o ano de 2003, se continuar, arrisca-se a virar o Ano do Lobisomem. O Ano do Vampiro, talvez. Não dá mais para suportá-lo, e se tantas fizeram com a população, por que não retrucar com a extinção abrupta de tanta crueldade?
A saída será fazer retornar a esperança, possível apenas pela imediata extinção do ano. Há o risco, é claro, de multiplicar-se por 365 a máxima de que o dia seguinte, no Brasil, sempre consegue ficar pior do que a véspera.
Já imaginaram se 2004 for ainda pior do que 2003? Nessa hipótese, à esperança já transformada em frustração seguir-se-á a indignação. E dela para a convulsão, a distância parece pequena. Não se fala em revolução, por enquanto.

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