
O que mudou desde que Lula assumiu o poder?
Carlos Chagas
BRASÍLIA - Comentário mais ouvido
no Senado, no rescaldo da vitória do governo, quinta-feira passada,
depois da aprovação da reforma da Previdência Social:
"Não mudou nada".
É a pura verdade. O presidente da República telefonou para diversos senadores indecisos, pedindo votos para o projeto oficial. Foi envolvente, cativante, como consegue ser quando quer, e obteve os dividendos esperados. O chefe da Casa Civil e o ministro da Fazenda liberaram recursos para as emendas orçamentárias individuais. José Dirceu fez questão de mandar para os senadores em dúvida sobre como votariam a cópia dos despachos de Antônio Palocci, autorizando o tesouro a enviar aos ministérios respectivos a autorização para as obras pretendidas nas diversas regiões.
Foram também reafirmadas as promessas de reforma iminente do ministério, para satisfazer o PMDB. Deu certo a manobra do líder Renan Calheiros, de ameaçar com a falta de votos se o Planalto continuasse enigmático e genérico com relação aos ministérios que serão colocados à disposição do PMDB. Parece que deu certo.
Uma cantiga que todos conhecem
Outra semelhança com o passado está no cerco feito aos oposicionistas,
agora do PFL e do PSDB, permeáveis a votar com o governo. Um afago
aqui, uma exortação ali, claro que entre promessas e até
realização de favores e pronto: como sempre, certos grupos nas
oposições colaboram com o governo, esquecendo-se de princípios
doutrinários ou de compromissos políticos.
Finalmente, os dissidentes. Fora uma senadora do PT e três senadores do PMDB, os adversários da base do governo rugiram antes, feito tigres. Ocuparam as tribunas para falar de suas consciências e de seu passado. Depois, na hora de digitar as teclas do painel de votação, miaram feito gatinhos. É sempre possível encontrar pretextos para voltar atrás, menos, é claro, justificar-se perante o eleitorado.
Quem esteve no Senado, quinta-feira, duvidou se havia entrado numa máquina do tempo qualquer, retornando aos oito anos do presidente Fernando Henrique. Parecia um videoteipe, só que encenado pelo governo que prometeu mudar tudo...
Para que tanto sacrifício?
Agora é oficial, do IBGE: o Brasil cresceu 0,4% no último trimestre
e esse percentual valerá para o ano inteiro. Mesmo no PT, a reação
está sendo de frustração. Afinal, para que tanto sacrifício?
- indagam parlamentares que só tornarão públicas suas
queixas no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro.
Este ano estaremos enviando para o exterior US$ 135 bilhões para pagamento dos juros e amortizações da dívida externa. A dívida pública esbarra no trilhão de reais. Cortes orçamentários de toda ordem impediram investimentos em infra-estrutura, educação, saúde, ciência e tecnologia e Forças Armadas.
À exceção de certas categorias organizadas, a imensa maioria do trabalhador não teve reajuste salarial. Ao contrário, os salários perderão, em 2003, 15% de seu poder aquisitivo. Os funcionários públicos, depois de oito anos de sufoco, tiveram seus vencimentos reajustados em 1%. Todo o sacrifício foi feito em nome do crescimento econômico, ou seja, como premissa para o espetáculo de desenvolvimento a ser encenado antes de dezembro.
Mas se crescemos apenas 0,4% do PIB, o mínimo a esperar serão mais 12 meses de sacrifício.
Números em convulsão
Nem o ministro Antônio Palocci seria capaz de divulgar os números
exatos, tamanha a confusão proposital que os governos criam em torno
da nossa dívida externa. Misturam débitos federais com estaduais,
adicionam os empréstimos tomados lá fora por empresas privadas,
classificam nas colunas de investimentos diretos aquilo que precisamos pagar
da mesma forma. O Banco Central funciona como mestre de cerimonias desse festival
de percentuais conflitantes, mas, para os economistas descompromissados, que
são poucos, nossa dívida encosta em US$ 380 bilhões.
Fica mais amargo, assim, constatar que este ano teremos enviado, em juros e amortização da dívida externa permanentemente renovada, US$ 135 bilhões. Já a dívida pública, decorrente da colocação de títulos do tesouro brasileiro no mercado nacional e internacional, essa encosta nos US$ 300 bilhões, mas multiplica-se mais rapidamente do que a externa pela necessidade que o governo tem de renová-la.
Nos dois casos, jamais se poderá acusar o governo Lula de responsabilidade. Os aproximadamente US$ 680 bilhões que o Brasil deve fazem parte da herança maldita, bastando referir que quando Fernando Henrique Cardoso assumiu, a dívida externa era de US$ 60 bilhões e a pública não chegava a US$ 100 bilhões.
A conclusão a que se chega é da inviabilidade do modelo de endividamento nacional como forma de nos desenvolvermos. Quanto mais pagamos, mais devemos, porque mais crescem as dívidas externa e pública. Empenha-se o governo Lula em aumentar a produção, multiplicar as exportações e dinamizar a atividade econômica, mas os resultados revelam-se progressivamente negativos.
Foi para mudar esse quadro que o eleitorado votou no candidato do PT, mesmo sem a imensa maioria conhecer os números e suas razões. Conheceu, mesmo, os seus efeitos, como ainda conhece e mais conhecerá. Desemprego, perda do poder aquisitivo dos salários, supressão dos poucos direitos sociais que restam, miséria e indigência. Até quando será encenada essa tragédia sem que a platéia se insurja?

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