
De como surrupiar o povo e receber os seus aplausos
Pedro Porfírio
"Pelo menos por algum tempo, Lula e
seu governo conseguiram enterrar a esquerda no País".
Chico Oliveira, sociólogo e fundador do PT
Está chegando ao seu melancólico final a novela alcunhada de
reforma da Previdência. Senadores solícitos esfregam as mãos
em que consagraram a inutilidade do parlamento bicameral. Apesar da resistência
de alguns próceres, a maioria burlesca falou mais alto. Para que o
governo do partido da estrela vermelha continuasse nas graças do FMI
e dos banqueiros, cumprindo os prazos prometidos, limitaram-se a um cala-boca
insólito, uma tal de PEC paralela, em que acrescentam qualquer coisa
sem mexer na encomenda. Quanta sabujice.
Voz impostada, como um antigo preposto dos podres poderes, desde os idos da ditadura à qual serviu de joelho, o político padrão da nova mixórdia governante espera ansioso pela hora de proclamar o feito em nome de um Congresso que não resiste a uma alegoria carnavalesca.
FHC deve estar morrendo de inveja: ele era um sapo servil, mas não era um sapo barbudo. A fatura pela virtual privatização da previdência, um dos cinco melhores negócios do mundo, será emitida justo por quem, até outro dia, jurava de pés juntos que jamais perpetraria tal ignomínia.
Perdas e danos gerais
Mais do que à esquerda, o governo do PT está causando perdas
e danos a todos os políticos brasileiros. Em quem acreditar? Pressagiamos
o crepúsculo do Estado nacional soberano com o comprometimento moral
dos seus homens públicos. A metamorfose foi além do imaginário.
Não tem explicação lógica. Não há
nada mais assustador do que um governo de "ex".
Os ex-trotskistas, ex-comunistas, ex-revolucionários, ex-esquerdistas, ex-moralistas, ex-patriotas, ex-operários, ex-isso e aquilo estão consumando um terrível pacto que levará à desmoralização e ao descrédito toda uma classe a quem incumbiria a mais sublime das missões, a gestão dos nossos destinos.
A "reforma da Previdência" é apenas o primeiro passo da cerimônia de entrega do ouro ao bandido. Os novos centuriões da hipocrisia já articulam a "reforma trabalhista" para muito breve. Reforma trabalhista? Anunciada por um Zé Dirceu é chumbo grosso no que resta de conquistas sociais. É aquilo que quiseram fazer enquanto a seleção de futebol fazia bonito no mundial. Lembra? O PT espalhou por todo o País os nomes dos parlamentares que haviam votado em tal proposta como indignos do voto cidadão. E agora, o que é que vai dizer à plebe ignara?
Para abrir espaço aos grupos de previdência privada, os marketeiros do governo petista jogaram a opinião pública contra os servidores e, numa grosseira orquestração, disseminaram mentiras contábeis. Criaram na massa a imagem de que iam fazer justiça social, salvar as aposentadorias futuras e economizar para aplicar em programas compensatórios. Não pegou, mas foi assim mesmo.
Mostraram as unhas na maior cara-de-pau, quando obrigaram os nonagenários a uma macro-humilhação. Depois, puseram todo mundo na fila para reclamar na Justiça direitos públicos, líquidos e certos. Avisaram que não estavam aí para brincar - queriam punir os aposentados e pronto.
Essa reforma que teve a chancela covarde de 51 senadores e ganha como brinde um novo acordo com o FMI (mais dívida, mais dívida) conseguiu fazer mais mal ao País do que se tivesse sido consumada num governo como o de Fernando Collor, que se elegeu pela direita. Porque, além de investir contra direitos adquiridos dos servidores, reduzir aposentadorias com descontos absolutamente inconstitucionais, mostrou que ninguém escapa às tentações do poder. Que ninguém tem peito de encarar os donos do mundo, que não se pode confiar em quase ninguém, porque a grande maioria dos políticos é de arrivistas, hipócritas e oportunistas da pior espécie.
O quartel do retrocesso
O partidão dos trabalhadores é agora o quartel do retrocesso.
Assumiu esse papel em nome do novo, imagina. Se imobiliza as organizações
que aparelhou para atrair as massas inconformadas, se compõe com o
que há de pior no Congresso, é capaz de virar num novo PRI -
o partido que "institucionalizou" as insurreições
no México e ficou no poder desde 1920 (só há dois anos
passou o cetro, para outro grupo de direita).
O agravante é que esse novo passa pela renúncia à soberania econômica de forma sorrateira. Enquanto viaja de um lado para o outro, enquanto despista com pronunciamentos agradáveis, o chefe do governo patrocina a rendição ampla, geral e irrestrita. A desmotivação dos servidores com o conseqüente esvaziamento dos serviços públicos é tudo o que deseja o imperialismo (palavra hoje fora de uso). Daqui para frente a frustração generalizada abrirá um imenso prado para os interesses privados, com o que tudo isso representa.
Consumado o massacre do funcionalismo e dos aposentados e pensionistas, partir para outra monstruosidade é um passo. Você espera o quê? No primeiro semestre, o ministro do Trabalho já deu uma dica, quando questionou o pagamento do terço das férias. Se deixar, na maciota, as próprias férias poderão voltar a ser como antes - 20 dias e olhe lá. E o décimo terceiro?
Só não cai se a burguesia mercantil negociar. Porque não interessa apenas aos assalariados. É com ele que o comércio sai do sufoco na recessão. Como a súcia do PT é extremamente perversa na rapinagem dos direitos sociais, convém esperar por uma carga de maldades que deixará os "investidores" estrangeiros com água na boca.
Destruir a legislação trabalhista, hoje, não é difícil. Basta manter o nível de desemprego que o Lula prometeu combater e que, na metamorfose, vem incrementando. O desempregado sem perspectiva é o melhor insumo para a "reforma trabalhista". O contrato decente desaparece, o "custo social" diminui e o pobre coitado tem de aceitar qualquer coisa para não depender das migalhas do "Fome Zero".
Haverá sempre um bode expiatório, uma conta manipulada, de tal forma que a massa ainda vai dar graças a Deus por ter sido surrupiada. O ritual será o repeteco do discurso salvador. O Brasil continuará no podium dos salários baixos e ainda se credenciará melhor perante os trustes por reduzir os acréscimos da legislação trabalhista "jurássica" de Getúlio Vargas.
O diagnóstico de Chico Oliveira sobre o enterro da esquerda pode ser ampliado: as forças populares estão desarticuladas, até porque os opressores de agora saíram de suas entranhas. Isto quer dizer: o "mercado" está rindo à toa. Não é por acaso que a bolsa registra recordes e os bancos divulgam balanços eufóricos.
Nesse ambiente, em que o povo está temporariamente na mais trágica orfandade, o PT se enche de arrogância e decide expulsar os quatro "radicais" após a votação da "reforma da Previdência" no Senado, como uma espécie de coroamento do processo de negação de tudo o que "vendeu" ao povo para galgar o poder.
A única coisa que pode estragar a festa da metamorfose é o resultado medíocre do primeiro ano da gestão petista. Com um povo ainda atônito, mas sem respostas para seus dramas, tudo pode acontecer. Até a reaglutinação dos setores indignados, a partir de cidadelas sobreviventes e da reação que começa a se cristalizar dentro do próprio partidão dos trabalhadores.

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