
O Congresso não tem jeito
Villas-Boas Corrêa
Pela facilidade com que o presidente Lula resolveu o desafio do desemprego, em oito horas de reunião com dez ministros, recrutados entre os 35 do seu Ministério gigante, com a simples fórmula mágica de fixar metas setoriais para a criação de postos de trabalho, fica-se a imaginar por que o governo desperdiçou um ano para adotar a solução imaginosa, quando poderia tê-la lançado ao inaugurar o mandato, em plena efervescência da euforia com a vitória enfeitiçada por mais de 52 milhões de votos.
Mas, como há explicação para tudo, o ministro Antônio Palocci, antecipou-se recitando a oração da desculpa óbvia, que tapa o buraco das cobranças. Antes da semeadura é necessário lavrar a terra, adverte o didático e sereno ministro todo-poderoso da Fazenda. Ou, repetindo a lição para os alunos desatentos, em suas exatas palavras: “É preciso dizer às pessoas que o Brasil decidiu, de forma definitiva, ser um país arrumado”.
Como se enxerga, uma jogada marota que, em giro de metralhadora, mirou em vários alvos. A distribuição de tarefas a dez dos 35 titulares de pastas ministeriais e secretárias interrompe o constrangimento da ociosidade compulsória de alguns que não tinham o que fazer ou dos que se embaraçavam na superposição de tarefas com colegas com as mãos e os pés amarrados.
Ficou para mais tarde, depois da viagem do presidente Lula ao México e de rodadas de conversas com seus assessores favoritos, a faxina dos 25 dispensados do mutirão para inventar empregos. E, no trompaço, rolou alguns degraus da escada da hesitação a empacada reforma ministerial, que se metamorfoseia em empreitada para arranjar duas vagas para o pagamento da dívida de Lula com os novos aliados do PMDB.
Desde que dispensou a coerência pela patriótica necessidade de buscar reforço para a base parlamentar na batalha para a aprovação inconclusa das reformas da Previdência e tributária, o presidente diz e desdiz-se com a desenvoltura impávida de desmemoriado. Costuma piorar o soneto de pé quebrado com a emenda. No embalo marqueteiro do balanço do final de ano, com a voz rouca impostada na tônica da esperança - com as marcas das frustrações da inexperiência em enganos veniais e em pecados de despachar a alma para os cuidados do capeta - o presidente reconheceu os erros na comunicação com a imprensa.
Muitos e inexplicáveis. Não tenho lembrança de governo agraciado com tão generosa, ampla e simpática acolhida da maioria, quase unanimidade, de jornais, revistas, TVs, rádios e jornalistas. A natural boa vontade com a eleição do primeiro presidente com a biografia do retirante, torneiro mecânico, líder sindical e fundador do inédito partido nascido de baixo para cima, reforça-se com a escolha de Ricardo Kotscho para assessor de imprensa, um profissional de conduta irrepreensível e do mais alto gabarito.
Pois bastou uma recaída no mau humor para o puxão na nossa orelha, em nota oficial que não dá para engolir nem fazendo careta. Acusar a imprensa de cumprir o seu estrito dever profissional ao registrar as fofocas difundidas por inconfidentes oficiais, muitos com acesso ao seu gabinete, na contradança da encruada reforma ministerial, invocando o pueril argumento de que a difusão da boataria prejudica a administração, é uma dupla bobagem: a da crassa ignorância das obrigações da cobertura política e da má utilização de um dos seus assessores mais qualificados. Pela redação e pela impropriedade, duvido que a nota tenha passado pelo crivo do Ricardo Kotscho.
Enquanto Lula se distrai com ninharias e brinca de esconde-esconde com a hospedagem dos novos hóspedes do PMDB no albergue ministerial e passeia pelo mundo, por detrás do biombo furado monta-se a farsa de nova convocação extraordinária do Congresso de milionários.
No jogo de peteca furada, que solta o pó da serragem a cada palmada, ninguém assume a responsabilidade da convocação que custará milhões e de definir a pauta da farra e a data para o começo da orgia.
Desculpas não faltam à inventiva de parlamentares e de assessores empenhados em agradar o Legislativo. Mas, com as cautelas para não ser reconhecido na mascarada, o deputado João Paulo Cunha, presidente da Câmara, em penitência pela indecorosa criação da verba indenizatória de R$ 12 mil mensais para ressarcimento das despesas de fim de semana, que carimbou a sua eleição, reagiu, qualificando de “um escândalo” a convocação pelo presidente. Depois de uma conversinha ao pé do ouvido com o chefe, fechou o bico e não deu mais um pio.
Sei que é malhar no ferro gelado da indiferença da imprensa e reconheço que o presidente Lula não pode nem tem poder para bater de frente com o Legislativo, pois precisa tanto de votos que está freqüentando a barraca do PMDB.
Mas, em homenagem aos leitores que despejam sua desprezada indignação nas cartas aos jornais e nas descomposturas por outros meios de comunicação, volto ao tema, com a teimosia insana de doido manso, para retificar contas com erros para menos.
A próxima convocação extraordinária do Congresso, em dinheiro vivo e repasses, engordará as economias de 81 senadores e 513 deputados federais – com as poucas e honrosas exceções dos que se recusam a embolsar a gorjeta – em mais de R$ 90 mil, além das quatro passagens mensais para a visita à família e uma para matar as saudades do Rio e as mordomias, vantagens e benefícios, como impressão de 200 mil folhas na gráfica oficial, 15 mil cópias em xerox, reembolso de despesas médicas no exterior e outros agrados. Tudo, vai muito além de R$ 100 mil.
Repita-se: não há nada a fazer para extirpar a praga que se espalhou pelas Assembléias Legislativas Estaduais e Câmaras Municipais.
A Constituição não prevê punição para falta de decoro coletivo.

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