
Vida de rico sem gastar dinheiro
Villas-Boas Corrêa
Com mais duas ou três pequenas providências que, com habilidade e manha, podem ser incluídas na pauta tradicional das reivindicações do grosso do eleitorado, os parlamentares brasileiros estarão realizando o sonho dos milionários que sabem gozar as delícias deste mundo aloprado, com todas as despesas pagas pela generosidade da Viúva rica que os sustenta, sem necessidade de carregar no bolso mais do que alguns trocados para as miudezas.
Os 81 senadores e os 513 deputados federais – que são o exemplo e a referência para as 27 Assembléias Legislativas Estaduais e as mais de cinco mil Câmaras de Vereadores Municipais – já estão muito perto, a um degrau que separa o sonho da realidade.
Praticamente não precisam deformar a elegância dos paletós ou o corte das calças com as carteiras, os talões de cheque e os cartões de crédito que infernizam a preocupação dos deserdados da fortuna, que cavam o sustento da família na dura luta dos empregos com horário severo e seis dias de expediente por semana. Classe de privilegiados, com a prerrogativa de fixar os seus ganhos, manipulando as cartas com habilidade de prestidigitador para criar as vantagens, os benefícios e facilidades que repassem verbas que engordam o salário indireto, como o glacê que enfeita o bolo e adoça a boca da dispensa do imposto de renda.
Agora, por exemplo, na escandalosa convocação extraordinária do Congresso para 20 dias úteis, ao custo da mixaria de R$ 50 milhões (o que não assusta o governo gastador, que acaba de decidir comprar um Airbus ACJ de último modelo por US$ 57 milhões, para o conforto, a segurança e a rapidez da intensa agenda de viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva), os parlamentares estarão emplacando o recorde de abocanhar 19 contracheques em 1o de fevereiro, quando completam um ano de mandato.
O que, em números redondos, multiplicando-se o salário líquido de R$ 9.640 por 19, representa o total respeitável de R$ 183.160, com a média mensal de R$ 15.263. Bolada com o amargo da gota de limão dos descontos para o imposto de renda. Mas que se dissolve no refresco açucarado das mordomias, que zombam do leão manso e desdentado da Receita.
A nova jóia da coroa é a verba indenizatória de R$ 12 mil mensais de que o parlamentar dispõe para ressarcir-se das despesas do fim de semana com a família ou as extravagâncias brasilienses mediante a simples apresentação de recibos.
Se não coça o bolso para os gastos pessoais até o limite de R$ 12 mil a cada mês, também não tem que se preocupar com as contas do hotel, opção da maioria dos mais de 90 por cento que se dão ao requinte de não morar na capital em que trabalham. Lucro que gera filhotes. Com a genial invenção da semana de dois a três dias úteis, das terças às quintas-feiras, com duas diárias semanais de hotel e os descontos de hóspede habitual em dias de vazante, sobra um troco da verba de auxílio-moradia de R$ 2.175.
Casa garantida, nada de esquentar a cuca com as passagens para os espichados fins-de-semana nos lençóis domésticos. A Viúva não regateia migalhas. São quatro passagens mensais da capital à base de Suas Excelências e mais uma para o giro turístico que mate as saudades da antiga e desprezada capital. Afinal, o Rio conserva alguns dos seus encantos para os abonados.
A lista de agrado é caprichosa nos seus cuidados. Os deputados dispõem de R$ 35 mil mensais para contratar livremente assessores para os seus gabinetes individuais. Facilidade que alvoroça a família, os amigos e cupinchas com os rebuçados das sinecuras.
Com a verba para correio, fax, telefone, está livre de incomodar-se com tais miudagens. Alguns previdentes retiram os selos do saldo e revendem com abatimento.
Ora, se não se apoquentam com as despesas pessoais e da família na rotina das dores de cabeça dos seus eleitores, para completar o criativo estilo de vida dos parlamentares talvez falte encontrar o jeito de garantir o pagamento da conta do alfaiate e do restaurante.
Véspera da renovação das mesas diretoras das duas Casas do Congresso é de ebulição e cócegas do eleitorado parlamentar, quando brotam as exigências para a barganha do voto. Pois já esteve em moda o auxílio-paletó, cassado em tempos de melindres superados. O cenário é perfeito para a recuperação da obra-prima das mordomias.
E nem é preciso estafar os neurônios para garantir a alimentação dos parlamentares. O Fome Zero popularizou o tíquete-refeição, um fecho de ouro para o soneto da bem-aventurança de senadores e deputados federais no começo de ano de otimismo, de esperanças, promessas e até da chateação de reformas que jogam água no chope gelado do verão de praias lotadas e das serras castigadas pelas chuvas que derrubam barracos e casas pendurados nos morros da nossa imprevidência.
Nem mesmo as ansiedades do ano eleitoral, com despesas que exigem a cobertura de dívidas bancárias, sombreiam os horizontes do céu sem nuvens. Tudo foi providenciado em dois tempos: no primeiro, a facilidade milionária do horário de propaganda eleitoral gratuito; agora, no segundo, o fundo partidário para contratar os marqueteiros e pagar as despesas com o cenário das emocionantes novelas das campanhas.
Estão com tudo os felizardos filhos da Viúva rica. Não há melhor emprego no mundo.

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